Esporte

Conheça a história do primeiro atleta de vôlei a se revelar publicamente gay

28/06/2020


Luiz Cláudio Alves Silva, o Lilico. (Foto: Globoesporte.com)

Globoesporte.com

A fala acelerada, mas firme, condizia com a postura junto à rede. Àquela época, no fim da década de 1990, Luiz Cláudio Alves Silva, o Lilico, distribuía suas pancadas na bola sem se importar com quem estivesse do outro lado. O vigor físico e a habilidade fizeram o oposto se destacar em meio a uma geração de craques no vôlei nacional. Lilico, porém, superou os limites das quadras e cravou sua importância no esporte ao ser o primeiro jogador a se revelar publicamente homossexual. Assim, abriu o caminho para que outros pudessem se livrar das amarras impostas por um ambiente, então, ainda mais hostil.

Hoje, na celebração do Dia do Orgulho LGBTQIA+, o GloboEsporte.com relembra a história do jogador, morto aos 30 anos em 13 de janeiro de 2007, em decorrência de um Acidente Vascular Cerebral (AVC).

-Ele tinha uma capacidade física fora fora do comum e também era muito habilidoso. Porque naturalmente jogava como oposto, mas também como ponteiro. Ele era realmente muito completo. E a habilidade era impressionante – Marcelo Fronckowiak, técnico.

A qualidade de Lilico logo o levou às seleções de base. Foi convocado para treinos com a seleção sub-17 ainda aos 14 anos. Voltou a ser chamado em 1991, na preparação para o Sul-Americano Infanto-Juvenil, no ano seguinte. Na competição, na cidade de Valencia, na Venezuela, conquistou seu primeiro título. Ainda chegou a ser convocado para o Mundial da mesma categoria, mas pediu dispensa por problemas de saúde. Mais tarde, conquistou a prata no Mundial Juvenil, em 1995, na Malásia.

Lilico não demorou a se firmar como uma das maiores promessas do vôlei nacional. Deixou o Banespa e passou por Palmeiras e Três Corações antes de se firmar no Barão/Ceval. Em um time sem estrelas, foi um dos principais nomes da Superliga 1998/1999. No clube catarinense, terminou a competição como segundo maior pontuador e um dos destaques do All-Star Game, que reunia os melhores jogadores da liga à época. Ali, Lilico já dizia abertamente ser gay.

 

Lilico, que aparece sorrindo, no meio, ao lado de nomes como Ricardinho, Gustavo e Rubinho na seleção de base - Divulgação
Lilico, que aparece sorrindo, no meio, ao lado de nomes como Ricardinho, Gustavo e Rubinho na seleção de base – Divulgação

 

Por conta das boas atuações em quadra, viveu a expectativa de uma convocação rumo aos Jogos Olímpicos de Sydney, em 2000. O oposto, porém, não apareceu nem mesmo na primeira lista de Radamés Lattari, então técnico da seleção. Lilico, então, apontou preconceito nas escolhas do treinador. O oposto passou a questionar como um dos melhores atacantes em atividade no país não merecia ao menos uma chance na seleção. Para ele, o fato de ser gay o impedia de vestir a camisa do Brasil como profissional.

– Já tinha com o Lilico uma situação de um pouco de revolta pelo fato de ele não estar na seleção brasileira. Ele já tinha dado declarações fortes relacionadas ao fato de que ele achava que não era convocado porque tinha revelado essa situação. Ele poderia tranquilamente, naquele momento, estar representando a seleção – diz Fronckowiak. Juntos, os dois foram campeões da Superliga com a Ulbra, em 2003, na primeira experiência do treinador à frente de um time profissional e na principal conquista de Lilico em quadra.

Hoje, no entanto, Radamés nega qualquer tipo de preconceito. Atual CEO da Confederação Brasileira de Vôlei (CBV), o ex-técnico justifica a ausência de Lilico com a grande quantidade de outros bons jogadores para a mesma posição.

 

Lilico em ação pelo Suzano - Ag. Estado
Lilico em ação pelo Suzano – Ag. Estado

 

– Eu achava o Lilico um ótimo jogador, mas acho que sobressaía mais quando o time jogava em função dele. Mas foi um período em que a seleção tinha Gilson, Max, Marcelo Negrão e Joel para a mesma posição. Era uma disputa muto acirrada. Inclusive disse para ele que o considerava um grande jogador. Única vez que tive contato com ele foi quando ele jogava, acredito eu, no Barão de Ceval. Jamais diria que ele era fraco, apenas achava que tinha outros superiores. É óbvio que há 20 anos a sociedade não encarava com a mesma naturalidade. Quando ele falou (sobre não ser convocado por ser gay), muita gente que me conhece deu entrevista na época me defendendo, que não fazia a menor diferença ser gay ou não. Era apenas uma questão de optar com os nomes que eu tinha.

-Ele deu uma entrevista dizendo que eu não o convocava por ser gay. Eu jamais tive essa postura – Radamés Lattari.

Longe da seleção, Lilico ganhou experiência internacional ao jogar no Nippon-Steel, do Japão. Ainda cogitou se naturalizar argentino para jogar as Olimpíadas de Sydney pela equipe rival, mas o processo não foi à frente. Insatisfeito com o vôlei e com uma dor crônica no pé-esquerdo, por conta de uma antiga ruptura nos tendões, chegou a ensaiar uma aposentadoria precoce, mas seguiu em quadra.

Lilico se firmou como um dos principais atacantes na Superliga. Rodou por alguns clubes e jogou com a maior parte da base que seria campeã olímpica nos Jogos de Atenas, em 2004. O líbero Serginho lembra com carinho do oposto, com quem jogou no Banespa e no Suzano.

 

Lilico seguiu a carreira de modelo e de DJ ao deixar as quadras - Ag. Estado
Lilico seguiu a carreira de modelo e de DJ ao deixar as quadras – Ag. Estado

 

– Lilico foi um menino que eu tive a oportunidade de jogar. Era um garoto com um potencial gigantesco no voleibol, com força física. Fora suas qualidades dentro da quadra, era um menino muito querido. Eu gostava muito dele, nos dávamos muito bem, ele respeitava todo mundo, seus colegas, era muito respeitado também. É um cara que marcou muito a minha vida como atleta. Porque, pelo fato de ele ser gay, era um menino que tinha uma personalidade, não escondia sua opção sexual por nada – diz o bicampeão olímpico Serginho.

-Era um menino com coração gigantesco. Tive o prazer de jogar com ele e conviver de perto – Serginho.

Enquanto jogador, Lilico já nutria outros sonhos. Estudava jornalismo e dava seus primeiros passos como modelo. A música, porém, era outra paixão do oposto, que também marcava presença em festas pelo país como DJ.

– Tinha algumas coisas engraçadas. Porque o Lilico gostava muito de festa, de música eletrônica. Ele era DJ também, tinha equipamentos. Ao longo da temporada, a gente ficava muito atento para que isso não influenciasse a performance dele. Só depois do final da temporada que a gente descobriu que ele participava de umas festas como DJ. Era muito chocante, porque a gente não tinha essa noção. E, ao mesmo tempo, ele conseguia manter o nível. E isso não acabou influenciando. Eu tinha uma relação muito legal com ele porque, anos antes, eu tinha jogado contra o Lilico. Era um treinador muito jovem e já tinha essa celeuma, essa polêmica, mas ele sempre foi muito tranquilo. Ele sempre me ajudou muito – afirma Fronckowiak.

Em 2005, Lilico deixou oficialmente as quadras. Passou, então, a se dedicar à vida como modelo e aos estudos para ser jornalista. Em entrevista ao SporTV, logo após a aposentadoria (veja no vídeo acima), dizia sonhar com um trabalho na TV. Pretendia, também, lançar um livro sobre sua experiência no vôlei para escancarar o preconceito que enfrentou durante a carreira.

Nos últimos dias de 2006, foi internado na Santa Casa de São Paulo após sofrer um AVC. Depois de algumas semanas, não resistiu e morreu aos 30 anos. Deixou, porém, o caminho aberto para que atletas das gerações seguintes já não carregassem o peso tão grande de não poder ser quem é.

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