Ramalho Leite

Jornalista, escritor e historiador.

Paraíba

Uma viagem sem volta


10/05/2024

Era julho de 1930. Na Capital da Parahyba, a Escola Normal e o Liceu Paraibano eram os estabelecimentos de ensino mais avançados. O estado estava convulsionado com a rebelião surgida no município de Princesa Isabel, declarado “território livre” pelo deputado e coronel José Pereira Lima. Era presidente da Parahyba o ex-ministro do Tribunal Militar, João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, sobrinho do ex-presidente Epitácio Pessoa.

Para combater os rebeldes, faltava ao presidente o indispensável apoio do governo federal, com quem perdera o diálogo desde a mais recente eleição presidencial, disputada e perdida por Getúlio Vargas, tendo o paraibano como integrante da sua chapa. A tudo João Pessoa recorria para conseguir armar sua polícia e manter a integralidade dos seus domínios, dividido pela insurreição. As alunas da Escola Normal encetaram uma campanha visando arrecadar fundos para reforçar os cofres do estado.

Foram incorporadas levar ao presidente o produto daquela ação cívica. O diretor da escola fez, em nome da instituição, um patriótico discurso. No seu agradecimento, emocionado e penhorado, João Pessoa concluiu: “Deus não permitirá a vitória do trabuco sobre a lei”. Permitiu! Nove dias depois desse encontro do presidente com as jovens normalistas que o cobriram de flores vermelhas, seu corpo chegava a esta capital, coberto de flores brancas. Fora vítima do trabuco.

A tragédia da confeitaria Glória, no Recife, foi o estopim que deflagrou a chamada revolução de 1930, entronizando Getulio Vargas no Catete por prazo indeterminado. Dali só sairia em 1945, com a promessa de um retorno triunfal. Era 26 de julho. João Pessoa, contrariando a opinião dos que o cercavam, dirigiu-se à capital pernambucana, cidadela inimiga e acolhedora dos que lhe faziam oposição. Entre estes estava o advogado João Dantas, injuriado com a campanha que o governo da Parahyba movia contra si e seus familiares, publicamente, através do jornal oficial A União e, disfarçadamente, em ações policiais nos redutos eleitorais dos Dantas

João Dantas procurou vingança quando soube da presença do seu inimigo no Recife. Saiu à procura de João Pessoa pelos lugares mais prováveis, encontrando-o na confeitaria cujo nome, por coincidência, escreveria a sua triste glória. “Eu sou João Dantas!”. Puxou a arma e atirou. “Canalha, não se mata assim covardemente um homem”, teria dito a vítima. (Do livro “Pequenas Histórias para quem tem preguiça de ler as grandes”)


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