Entretenimento

Sexo, Mentiras e Destruição

30/10/2020


Para Daniel, que aniversariou recentemente.

O programa Com a Língua Solta, da Rádio Tabajara da última quarta feira, falou de relacionamentos e sexo na pandemia. Das formas possíveis de amar e des-amar nesses tempos sombrios, e da força vulcânica e libertadora que é o sexo, e como vive-la em estado de isolamento e dentre tantas restrições e medos.

À noite , um amigo me ligou para aplaudir a pauta. E dizer que pela primeira vez ouviu numa Rádio, assuntos tais como: masturbação, Shere Hite, orgasmos, privações, sexo virtual, vibradores, etc. O programa lhe trouxe um passeio pela sua juventude em João Pessoa, e toda a vida restrita nesse quesito, e as estratégias e artimanhas que todos os rapazes, e moças encontravam para viverem essa delícia que é o sexo.

E de sexo e opressões. nessa mesma semana, assisti à série da HBO, I May Destroy You,  (2020) ,por indicação do meu filho caçula, Daniel, que por acaso, aniversaria hoje, 29 anos, no dia 29/09. Número cabal!

A série é escrita, co-dirigida e protagonizada por Michaela Coel — que também é diretora executiva da obra. Desde a abertura, a personagem Arabella, com sua peruca rosa, apresenta uma trama vertiginosa, protagonizada por um elenco majoritariamente negro, com corpos diversos e subjetividades que, só estamos acostumados a ver representadas na vida dos brancos.

Em ritmo  frenético e fragmentado, temos  uma jovem escritora, que fala da sua geração, classificada como Millennial, e a sua obsessão por smartphones, internet, simultaneidades, e pelo engajamento por causas nobres: meio ambiente, racismo, feminismo. Também presentes, o tema da escrita, falta/criação de conteúdo, subversão da linguagem nesses tempos das máquinas, relação escritora/agentes/editor, temas esses que se confundem talvez, com a vida da própria Michaela.

Arabella é estuprada numa balada, e toda a série é uma busca dolorosa sobre refazer e descobrir o autor da violência, já que Arabella foi drogada e deixada em estado de flagelo.  A partir daí, temos flashbacks dos acontecimentos de uma jovem que sai pelas ruas Londrinas em busca de drinks and nights.

A temática do estupro é um soco no estômago de todas nós. E dos homens também, pois durante a trama, nos aprofundamos na palavra, “Consentimento”, de todas as nuances do seu significado, e o que pode representar isso de acordo com as leis de cada país. No caso de Londres, Arabella tem todo um acompanhamento especializado de uma delegacia, como também de sessões terapêuticas, que a acolhe com indicações de fazer coisas boas: Yoga, pintar, dançar, e tantas outras coisas lúdicas, mas também para se renovar, se restabelecer, se reinventar psicologicamente. E alertas do cuidado de si! A presença da sua amiga Terry, para quem oferece seu primeiro livro, é um outro enfoque importante da história, o da sisterhood – no nascimento à morte, como as duas reafirma a cada brinde.

Arabella também frequenta um grupo de apoio para os violentados sexualmente. Numa de suas falas, poderosa e assertiva, Arabella afirma sobre o que seja a observação e violação dos limites na hora do sexo. De como os homens sabem e tem esse poder sobre os corpos femininos. Conhecem os meandros de todos os limites e sinais infringidos à revelia. Sinais esses também violentados nas relações gays. Arabella faz um alerta às mulheres e/ou gays e trans: precisamos sim, ter também esse poder de observação e controle, para nos protegermos  e nos anteciparmos. Auto Proteção!

A série é ágil, frenética e multicor (Arabella vestida para o Halloween, com a sua fantasia de anjo negro pelas ruas de Londres, é responsável por imagens distorcidas, hilárias e belas, reforçadas também pelos espelhos, pubs, underground clubbers, suas perucas coloridas, e seu andar andrógino). E conta uma história que atravessa milênios, mas de uma forma  original e do ponto de vista de uma jovem. Gostei de conhecer essa geração, suas questões e formas de lidar com as loucuras e também violências da vida sexual. Infelizmente, uma violência/dor/trauma do estupro, que continuam as mesmas.

Nunca é demais falar de estupro. Ele pode sim, destruir você!

Ana Adelaide Peixoto – 29,09,2020

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