Cultura

Saudades de Tom Jobim

24/08/2020


“Se Ary Barroso e Villa-Lobos morreram, eu também posso morrer”.  Tom Jobim

Afora os meus mortos, tive  algumas perdas públicas que me deixaram profundamente desconsolada, até mesmo  como se fosse a perda de um amor. E era. Fellini, Marcello Mastroianni (por conta de Fellini), Cassia Eller e Elis Regina  (pelas circunstâncias e juventude), John Lennon (pela violência e Imagine!), George Harrison – My Sweet Lord!, e alguns outros poucos. E Tom Jobim. Esse, chorei feito um Passarim. Era apaixonada pelo belo homem e pelo artista. Acompanhava notícias, e quando se foi, chorei muito diante da perda irresistível daquele artista singular, da tristeza absoluta da sua mulher Ana, da sua filhinha Maria Luiza, e dos músicos órfãos. E os anônimos. Eu.

Nessa pandemia, e na reclusão para todos, algo de bom e inusitado surgiu. As Lives. Sobrevivência e resistência! Nem gosto tanto, mas é uma oportunidade da gente ouvir pessoas, palestras, e nossos artistas queridos. E uma  das rainhas das Lives (desde Março), e de o que tem feito com elas, sem dúvida é a sambista carioca,Teresa Cristina.  Particularmente, ouvi-a de quando em vez, e me encantei pelo seu trabalho, Teresa Cristina + Os Outros, cantando Roberto Carlos. Passei tempos ouvindo aquela trilha enquanto dirigia meu carro que não era vermelho.  No carnaval, sempre acompanhava seus shows pela TV e curtia a sua voz aveludada, presença constante no Carioca da Gema, na Lapa.

Pois comecei assistindo à suas Lives e ficava impressionada com o seu conhecimento de música, de músicos cariocas, e não só;  de outros temas também. Bonita, simpática, articulada, espontânea e com excelente trânsito no mundo musical carioca. Constatava minha santa ignorância, diante de tantos nomes por mim desconhecidos, embora não seja nenhuma especialista em música, menos ainda em samba, como minhas amigas, Alba e Albiege Fernandes. Ficava também matutando sobre aquele mundo de tantos talentos, e tão restrito ao Rio de Janeiro, enquanto nas rádios e nas outras mídias, ficamos a ouvir Michel Teló e outros assim. Com todo o respeito a quem gosta. Mas sou daquelas que, sei da imensidão do talento musical do Brasil. E que são milhares os artistas de qualidades que se arvoram nessa área, e que tem que matar dez leões por dia, para conquistar um lugar ao sol nesse mundo, vasto mundo, que é o Brasil. E a Teresa Cristina, soube que só ela , aproveitar esse instrumento. Tirou Gilberto Gil da cama, trouxe Caetano de pijamas pra cantar, Marisa Monte, Monica Salmaso, homenageou Moraes Moreira pelos seus 73 anos, e por aí foi. Começou domesticamente, já está patrocinada (ontem tinha 5.500 pessoas assistindo) e fazendo uma capa linda da Revista Vogue. Com certeza , ao passar a pandemia, terá mais escolhas para a sua carreira já de sucesso.

Suas Lives maravilhosas, (vejo algumas, perco outras, assisto partes….) e assim caminham as minhas noites (sem Roberto Redford). Quem assistiu ao filme Nossas Noites, sabe do que estou falando. Pois sexta feira 10/07, Teresa fez sua Live, em homenagem a Tom Jobim. Me preparei para assistir. Meia luz, taça de vinho, um quarto todo meu. Fiquei plantada no celular das 22 h até à 1.30 da manhã. Tive a emoção de conhecer Maria Luiza Jobim (a última vez que a vi foi na morte do pai). De ouvir Rosa Passos (essa gigante da música brasileira). De também rever Paula e Jacques Morelenbaum, em duetos de músicas inesquecíveis de Tom, como também a sua filha Dorinha e amigos jovens; Paulo Jobim, Clara Buarque falando do avô e cantando, e Bebel Gilberto. Mandei muitos coraçõezinhos para todos eles, e mais para Ana Jobim e outros Jobims que apareciam. Foi realmente uma noite digna de uma sexta feira, e entre um gole e outro,  muitas lágrimas de saudades de Tom, de mim, daqueles tempos em que cantei muito aquele disco ícone, do Tom & Elis – É pau, é pedra! Mas tiveram outras inesquecíveis como Imagine, Sabiá, Ligia,  Praias Desertas, O boto, Falando de Amor, sem falar nas conversas e/ou depoimentos dos amigos, familiares, trazendo-nos a memória de Tom.

O sono foi embora. Mas nem reclamei. Sonhei. E as saudades continuaram, do maior maestro do Brasil, e de outros queridos que, no silêncio da noite me visitavam.

 

Ana Adelaide Peixoto

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