Política

Regina Duarte substitui um nazista na Cultura

21/01/2020


Regina Duarte

Por Gil Sabino

 

Distante quase quarenta anos de um de seus maiores papéis na teledramaturgia brasileira, a atriz Regina Duarte, nega o personagem protagonizado em Malu Mulher, criado e dirigido por Daniel Filho para a TV Globo. Malu Mulher teve na época, entre os anos 1979 e 1980, um super índice de audiência, sendo exportado para exibição em mais de cinquenta países.

 

Regina Duarte se fundia ao personagem Malu Mulher, uma socióloga, recém-divorciada, mãe, desbravando guerras sociais, tentando ganhar a vida sozinha, sofrendo os preconceitos de época e levantando a bandeira do feminismo diante de temas contemporâneos, uma mulher de vanguarda, a frente de seu tempo.

 

Nesta segunda-feira (20) a atriz Regina Duarte aceitou o convite para comandar a Secretaria de Cultura do governo Jair Bolsonaro, e segundo ela, será um período de testes. (-Ora, se faz testes em cargos do Governo?). “Nós vamos noivar, vou ficar noiva, vou lá conhecer onde eu vou habitar, com quem que eu vou conviver, quais são os guarda-chuvas que abrigam a pasta, enfim, a família. Noivo, noivinho”, afirmou a atriz à coluna da jornalista Mônica Bergamo. Anunciou também os seus planos para a pasta: “Quero que seja uma gestão para pacificar a relação da classe com o governo. Sou apoiadora deste governo desde sempre e defendo a classe artística desde os 14 anos”.
É aí que se confundem os papéis, de uma artista consagrada com mais de cinquenta anos de carreira e que antes defendia a classe artística, para representar junto a um governo de ultradireita, com ares renovados do nazismo, e que vem tentando acertar os passos da cultura conforme seu entendimento censor, castrador da liberdade de comunicação e artística e cultural. É justamente aí que a artista veste a máscara do ex-secretário declarado nazista, Roberto Alvim.

 

O que se esperar de Regina Duarte como Secretária de Cultura?

Na semana passada, a atriz contestou a indicação do documentário brasileiro ‘Democracia em Vertigem’, de Petra Costa, ao Oscar, dizendo que “Oscar nenhum vai reescrever a nossa História”. Em outra postagem, uma imagem trazia a seguinte frase, ainda em crítica à indicação do filme de Petra Costa, que narra o golpe que tirou a ex-presidente Dilma Rousseff do poder. “A verdadeira história sobre o impeachment foi feita por milhões de brasileiros nas ruas e Oscar nenhum vai reescrever nossa história”.

 

Pois bem, diante de uma artista com postura conservadora, ela chegou a afirmar no programa do comunicador Pedro Bial (TV Globo), que achava a personagem Malu Mulher muito feminista para o gosto dela. Que exagerava um pouco.
O que então, podemos esperar, senão a extensão ainda de mais um período de perda de tempo, de contra censo ao que verdadeiramente significa a arte e a cultura? Gestão cultural requer conhecer os processos criativos, de produção, de expressão livre e contemporânea, de vanguardismo, de consumo. Entender a linguagem abrangente, passear pela cultura dos Estados, do interior do país. Ouvir, propor discussão, abrir diálogos, interagir com a classe artística, com os produtores, com os empresários, planejar investimentos de incentivo, buscar estratégias de promoção dos valores e talentos do mercado, inovar.

 

E o que, e em que Regina Duarte está preparada para assumir tal função? Ela própria se disse despreparada… Uma pessoa que publicamente se revela com formação militar, filhar de pai militar, fundamentada dentro dos parâmetros rígidos de educação, uma mulher que demonstra medo e submissão, que compactua com a mulher antiga e recatada do lar, para ser apenas uma serviçal. Uma mulher que limita uma estreita visão da mulher moderna, atual, que saiu de casa, que assumiu compromissos, que brigou publicamente por direitos, que dá um basta, para a violência machista, e que reconhece seu lugar na sociedade do mundo atual.

 

Regina Duarte, a namoradinha do Brasil, com sua meiga maneira de falar, parece voltar à cena apenas para atender o fetiche de um canastrão no poder, um cara petulante, agressivo, ditador, com a própria visão tosca do que seja cultura. A ele é que a atriz deverá servir. A este Governo fascista que tenta emplacar atrocidades. Esta noivinha assumirá já com a maioria da classe artística dividida a seu respeito. Aguardemos para ver o que acontecerá. Como bem lembrou e exemplificou o ator Lima Duarte, e reproduzido na coluna de Silvio Osias para o Jornal da Paraíba, aguardemos para ver as chibatadas do “Sinhozinho Malta na Presidência e a Viúva Porcina na Cultura”.

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