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Perambular por ai….


03/10/2017

Foto: autor desconhecido.

(Para o querido Petrônio Souto , que me inspirou a escrever essa crônica, pelas suas andanças na cidade, num domingo qualquer, para ir cortar o cabelo…)

O termo flâneur vem do francês e tem o significado de "vagabundo", "vadio", " preguiçoso", que por sua vez vem do verbo francês flâner, que significa "para passear".

Charles Baudelaire desenvolveu um significado para flâneur de "uma pessoa que anda pela cidade a fim de experimentá-la".
Foi Walter Benjamin, baseando-se na poesia de Charles Baudelaire, que fez dessa figura um objeto de interesse acadêmicos no século 20, como um emblemático arquétipo da experiência moderna. Seguindo Benjamin, o flâneur tornou-se um símbolo importante para estudiosos, artistas e escritores.

Sempre gostei de andar a esmo. Flanar. Sem destino. Me perdendo e me achando. Contemplando ao meu redor. Fiz isso a vida toda. E contemplar. O dia, a noite, o céu e as estrelas, o mar e suas nuances de verde/azul/amarronzados, a natureza. Contemplar o vazio – o de fora e o meu próprio. Contemplar !

Quando criança, que podia andar sozinha na vizinhança. E lá ia eu observando os jambeiros da Rua das Coremas. Ou as mangueiras da Avenida Maximiano Figueiredo ou da Almirante Barroso, onde morei anos. Ou ainda os flamboyants da Av. Camilo de Holanda onde por alguns anos vivi também. Gostava de olhar com o rabo de olho pelas frestas dos portões, para adivinhar o que se passava ali naquela casa, naquele terraço ou naquele espaço estranho e sedutor do além muros.

Aos dez anos, já andava de ônibus sozinha para as aulas de solfejo em D. Luzia Simões e ballet no Teatro Santa Rosa. Quanta liberdade! Era o céu falado, tomar o ônibus e observar os passageiros, e ver as casas do alto. Quem subia e quem descia. E por falar em descer , descia correndo a ladeira do Teatro. E por baixo das sombras da Rua Nova, Direita, eu cantava amor febril e descobria a cidade. As ruelas, as lojas, seus habitantes, a atmosfera do Centro que gostava tanto de descobrir, mas aí já era adolescente. Uma moça!

Mais tarde vislumbrei outras delícias de andar por aí. Praças, esquinas mais escuras, beijos roubados no pátio da Igreja São Francisco à tarde, vazia e propícia ao namoro, o lanche simples, mas que tinha sabor de liberdade (escondida eu ia andar pela cidade), e ao Cinema. Ah! Para Cinema Paraíso nenhum dar conta. Só mesmo a peregrinação de João Batista e Brito (contada em texto na última publicação em suas Imagens Amadas), faz companhia à minha experiência nas matinês. Cinema de Arte. Escurinho. E todas as minhas últimas sessões….. Ainda hoje, faço disso um programa dos prazeres. Ir ao cinema sozinha.

E durante a vida, sempre gostei de ser uma flâneur, perambular pelos espaços e pela vida. Nas viagens, ainda mais. Terra Estrangeira! Povo estrangeiro! Língua estrangeira, tudo para me reportar às estórias outras, longínquas, que vi no cinema ou nos meus sonhos não ditos. Por vezes impublicáveis. Até hoje não entendo gente que só viaja com translado, que pega taxi todo o tempo. Há de se ter pernas, pra que te quero! E brincos! E não só fora do país perambulei. No Rio de Janeiro fui uma caminhante durante tantas vezes. Gostar de sair por entre as quadras de Copacabana e ouvir Dick Farney cantando baixinho no meu ouvido.

Eram tempos outros. A gente caminhava sozinha, de dia e à noite, sem se preocupar com roubo ou quaisquer outro tipo de violência. Somente os tarados de ponta de rua! Hoje, ninguém sai mais de casa. A pé então…Os jovens ficaram obesos, os adultos com dores nas articulações de dirigir carro, e os velhos? tristes. Eu mesma não ando mais a pé. Só na calçadinha, com um olho no horizonte e outro ao redor para me defender. E depois, a cidade esquentou, cresceu, e não tem mais onde se andar. Tudo é longe e inseguro. No Centro, a tristeza de constatar uma cidade em ruínas e nos bairros, nada a descobrir. Aqui no Bessa, bairro onde moro há décadas, todos os estabelecimentos perto da minha casa já foram assaltados. Só me resta andar pelo quarteirão, para lembrar da infância dos meus meninos e dos tempos em que minha alma estava sombria. Esse caminhar me tirava a angústia do peito. E eu sentia o frescor da manhã. Com os pés descalços, misteriosamente eu sentia o chão aos meus pés, e essa concretude me enlevava aos céus, literalmente, e novamente, espiava a entrada das casas da vizinhança. Paulo Barreto (Baleia) (do Gulliver), Naná Gomes (da rua da frente), Kay France (e sua academia), o riacho nada doce que hoje virou parque, e os bem te vis…vi todos! Pelas janelas entreabertas da alma, minha, dos outros, e da alma imoral, eu flanei!

Charles Baudelaire apresentou um memorável retrato do flâneur como o artista-poeta da metrópole moderna: “A multidão é seu universo, como o ar é o dos pássaros, como a água, o dos peixes. Sua paixão e profissão é desposar a multidão. Para o perfeito flâneur, para o observador apaixonado, é um imenso júbilo fixar residência no numeroso, no ondulante, no movimento, no fugidio e no infinito. Estar fora de casa, e contudo, sentir-se em casa onde quer que se encontre; ver o mundo, estar no centro do mundo e permanecer oculto ao mundo, eis alguns dos pequenos prazeres desses espíritos independentes, apaixonados, imparciais que a linguagem não pode definir senão toscamente.” Le Figaro, 1863)

Flanar, um verbo que conjugo até hoje. Em qualquer lugar que eu vá, até mesmo na esquina, eu me abstraio. Invento. Contemplo. E como dizia o poeta, aproveito tiro proveito do ondulante, do fugidio e do infinito. E esse pra mim, é um estado de felicidade. Feliz sou!

Ana Adelaide Peixoto – João Pessoa, 3 de outubro de 2017
 

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