Ramalho Leite

Jornalista, escritor e historiador.

Paraíba

Os alemães no Brejo – por Ramalho Leite


25/02/2024

Guardei desde menino a imagem daquele galego grandalhão que morava num quarto externo da casa dos meus pais em Borborema. Conhecido como “seu” Guilherme, ainda hoje não conheço o seu nome familiar. Chegou à Vila de Camucá em uma madrugada de chuva. Temendo pela própria vida, pediu abrigo e proteção ao Dr. Jose Amancio Ramalho, então chefe político da localidade. Fugia da Vila de Moreno, distrito do mesmo município de Bananeiras, onde todo o seu patrimônio fora devorado pelo fogo. Os brejeiros viram naquele comerciante alemão a oportunidade de vingar os brasileiros mortos nos navios afundados por submarinos germânicos.

É sabido que a neutralidade do Brasil na segunda guerra foi quebrada pela agressão do Eixo à nossa frota de navios mercantes. A morte de brasileiros nesses ataques fez o País aderir ao conflito. Era agosto (sempre agosto) de 1942 e em apenas dois dias, mais de seiscentos brasileiros tiveram o mar como tumulo, junto com seis navios abatidos na costa do nordeste brasileiro. A notícia ecoou por toda parte e os estrangeiros, cujas nações estavam unidas a Hitler, pagaram com suas posses o prejuízo bélico. A Vila de Moreno não deixou por menos: expulsou o único inimigo ao seu alcance e extinguiu o seu comércio. A Vila de Camucá foi seu exílio, sob a proteção do pacifista Zé Amancio e do juiz Mario Moacyr Porto, da Comarca de Bananeiras.

Por que o alemão, no fim da vida, morava na minha casa? Ao se estabelecer na hoje cidade de Borborema, seu Guilherme fez do meu pai seu sócio em um empório de tecidos, miudezas e ferragens e o transformou em um homem rico. A política levaria tudo, a partir do momento em que meu pai tornou-se único proprietário da firma. O alemão acometido de tuberculose faleceu no Recife, para onde meu pai o levara, a seu pedido, para morrer junto dos familiares ali residentes. Ficou muitos meses em tratamento, naquele quarto anexo à minha casa onde guardo a lembrança da sua presença.

Outro alemão que já estava em Borborema quando seu Guilherme chegou chamava-se Harris Kramer. Casou com dona Alzira Lucena e constituiu numerosa família. Um de seus filhos foi à pia batismal levada pelos meus pais.Eram compadres. Mecânico dos bons, dedicava-se à manutenção da indústria de fécula e da hidrelétrica,( iniciativas de Zé Amâncio) e ao trabalho de construção e restauração de peças de uma dezena de engenhos de rapadura da região. Um filho de seu Harris, Artur, é Auditor Fiscal do Estado. Dona Alzira era filha de Adelson Lucena e, enquanto na ativa, foi agente dos correios de Borborema. Era prima de Humberto Lucena, que exerceu durante longos anos hegemonia administrativa sobre os Correios e Telégrafos, desde que seu pai, Severino Lucena, exercera a direção-geral no estado.

Em Bananeiras fixou-se por alguns anos seu Frederico, chegado ao brejo na mesma época dos dois já citados. Migrou para Natal e seus descendentes estão ali arraigados. Antes de todos esses, trazidos pelo Comendador Felinto Florentino da Rocha, filho do Barão de Araruna, chegou a Bananeiras outro alemão e ali constituiu família. Conta Maurílio Almeida que esse germânico estava preso no Recife, com toda a tribulação do seu navio. Foi entregue sob custódia ao Comendador, que necessitava de um mecânico para montar uma usina de beneficiamento de café, na época em que Bananeiras era a produtora do melhor café do nordeste. O Comendador não contava introduzir o alemão Wildt na sua família, mas foi o que aconteceu. Uma bisneta desse alemão é a primeira coronela (com o perdão de Dilma) da Polícia Militar da Paraíba. Wildt trabalhou com outro patrício em Alagoa Grande, estabelecido com oficina mecânica, a serviços dos engenhos. As águas de Camará destruíram essa oficina localizada às margens do rio, na chegada de quem vem de Areia. Esses alemães deixaram a Europa após o primeiro conflito mundial, prevendo e temendo uma segunda edição. Estavam certos.


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