Política

O papel político do professor

12/09/2020


Na imagem, o historiador, produtor cultural e advogado Rui Leitão

Publicado no jornal A UNIÃO edição de sábado (12)

Educar é uma ação política. Muita gente não percebe a dimensão política do trabalho pedagógico. O professor deve ter consciência de que é importante instrumento de transformação social. A tarefa da escola é promover a cidadania. A sala de aula deve ser um espaço de debate de ideias, um ambiente em que se forme e se desperte a consciência crítico reflexiva dos alunos que se tornarão os cidadãos de hoje e do amanhã, aptos a participarem da vida social, política, econômica e cultural do país.

É necessário, no entanto, definir bem o papel político do professor em sala de aula. Há uma diferença a ser observada entre “politizar” e “partidarizar”. O debate da política não é assumir um viés partidário ou ideológico. A política a ser exercitada é no sentido amplo de cuidar da vida coletiva e da sociedade, levar o aluno à prática da reflexão, da análise crítica. Usar sua condição de docente para conduzir a um debate onde cada um possa formar sua opinião, seu juízo de valor, sua visão própria do mundo em que vivemos.

O professor não deve transformar a cátedra em palanque político. O contexto político do momento deve ser discutido em sala de aula, principalmente por ocasião das campanhas eleitorais, mas ao profissional da educação não pode ser dado o direito de, tomado por paixões políticas, fazer da aula um discurso de proclamação em favor de um candidato ou partido, deixando de lado o compromisso da análise serena dos fatos, das circunstâncias e do processo democrático em que todos estão envolvidos, contribuindo para que o exercício do voto seja efetivado consciente e livremente.

Analisar ou problematizar momentos políticos é responsabilidade do educador, apresentando de forma isenta as tendências e os interesses que estão em jogo. Emitir sua opinião desapaixonadamente, mas estimulando o contraditório, a discussão, o debate, a observação crítica. A sua condição de formador de opinião, principalmente quando seus discípulos estão em fase de formação de sua consciência política, não o autoriza a influenciar intencionalmente alguém a tomar decisões conforme sua orientação.

Comportamento idêntico se espera quando do estudo de fatos históricos polêmicos. O professor deve apresentar as diversas versões da visão do acontecimento, deixando a critério dos alunos, através de pesquisas a serem propostas sobre o assunto, tirarem suas próprias conclusões. Os mitos, os ídolos, os eventos, têm que ser apresentados no contexto em que os historiadores e pesquisadores nos deram a conhecer nas suas diferentes formas de observação, permitindo o corpo discente encontrar a sua própria compreensão.

Quando delegamos aos professores a responsabilidade de colaborar na construção da personalidade de nossos filhos, esperamos que eles tenham o perfeito entendimento de sua nobre missão, exercendo o seu papel com ética, responsabilidade e comprometidos com a sua função de formar cidadãos críticos e atuantes na nossa sociedade. Queremos que nossos filhos sejam estimulados a “pensar” e não que os professores pensem por eles.

O propósito desse chamamento à reflexão sobre o papel político do professor é também o de realçar a importância desse profissional na vida social, o que muitas vezes chega a ser ignorada por autoridades governamentais desse país.

Rui Leitão

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