Economia & Negócios

O Brasil na nova crise econômica

22/05/2020


O mundo enfrenta uma crise econômica tendente à depressão. A rigor não se sabe o seu tamanho final. A pandemia desativou parte das atividades produtivas. O desemprego e a recessão nos EUA, Brasil, Europa, etc. galopam. Se as economias continuarem nesse padrão operacional, até o final do ano, o desastre será imenso.

A crise tem conteúdos simultâneos singulares: a) alta redução dos níveis de produção, demanda e emprego, b) explosão dos endividamento e déficit públicos, c) expansão monetária e d) deflação e queda dos juros. A solução que virá certamente terá por base novas economias nacionais integradas a um novo sistema globalizado.

Pelas atuais previsões do FMI, neste ano o PIB mundial cairá 3%, o dos EUA 5,9%, o do Japão 5,2 % e do Brasil 5,3%. O da China crescerá apenas 1,2%. Os déficit e divida públicos dos EUA saltarão de 6% e 109% do PIB, em 2019, para mais de 15% e 131%, em 2020. O desemprego irá a 17%. No Brasil e na Europa, esses resultados serão piores.

A superação dessa situação crítica, cujas causas vêm de uma pandemia, exigirá uma nova sabedoria política e, sobretudo, econômica. A Economia, enquanto ciência, não dispõe desse saber inovador. Mas é evidente que não há solução, e sim mais problemas, pela via neoliberal, com sua apologia dos Estado mínimo e ortodoxia fiscal-monetária.

No Brasil, preocupam as propostas do ministro Paulo Guedes. Suas idéias econômicas são da Universidade de Chicago, anos 1970, que hoje até lá são superadas. Para Guedes, com as reformas da previdência, trabalhista, organizacionais e de ajuste fiscal, a volta automática dos investimentos faria a economia crescer a altas taxas. Não disse quando!

Isso não funciona, sob os ônus de fortes efeitos recessivos. A coerente recuperação da economia não vem das ações empresariais. Em 2019, o PIB do Brasil podia crescer 3,5%, aproveitando capacidade produtiva ociosa, cresceu 1,1%. Faltaram políticas governamentais de expansão da demanda para, assim, estimular o setor privado.

Em 2020, as empresas enfrentarão recessão e capacidade ociosa gigantes. Precisam de demanda efetiva nos mercados, mas donde virá? Dos milhões de desempregados, endividados e micro/pequenos empresários falidos? Não. Isso só o governo pode criar, com políticas e ações públicas eficientes de despesas, investimentos, emprego, subsídios e crédito. Absorvida a ociosidade, virão com mais força os investimentos privados.

Será cruel, se o Brasil for campeão mundial de ajuste fiscal afogado no caos socioeconômico. Os EUA, para terem uma queda do PIB de 6% e não uma grande depressão, terão os maiores déficit e divida públicos históricos. Nesse contexto, é razoável que o nosso país financie os custos da não depressão com dívida e déficit públicos, que devem passar de 76% e 6% do PIB, em 2019, para 100% e 12%, em 2020.

Rômulo Soares Polari
Professor e ex-Reitor da UFPB

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