Gil Sabino

Jornalista e assessor de imprensa.

Paraíba

O Bêbado, a Equilibrista e a corda bamba


30/11/2021

(Foto: reprodução)

Nesses dias em que a perplexidade ronda nosso calendário, saímos de casa se tanta certeza de voltarmos. Não, não imagine que vamos adentrar um texto negativo, pra baixo, nada disso. Mas, a realidade é que logo ali na saída, encontramos um casal argentino. Ela, uma loirinha de tranças do tipo dreadlocks, tatuagens, short curto, pernas robustas de quem frequenta academia, e ele, também com suas tranças jamaicanas de rastafári, equilibrando-se em cima de um monociclo, expondo sua habilidade, a agilidade e precisão fazendo malabarismo. Um jogo de objetos que o artista manuseia com suas bolas coloridas, clavas, argolas, tochas de fogo, facas, serras, caixas, etc. Um jogo, como outro qualquer, porém desafiador.

Para um cidadão como eu, que aos 62 anos carrega já as dores de coluna limitando dançar sem pular, ou andar de bike; e tem na bagagem diabetes, problemas cardíacos, entre outras pequenas doencinhas além das projeções psicológicas; que passou pela ditadura militar de 64, que viveu as incertezas de um tempo sem memória, um tempo bruto, que levou tanta gente aos porões sem volta, cruzes sem nomes, imaginar subir num daqueles monociclos seria uma felicidade, mesmo.

Falo da corda bamba, do Bêbado e a Equilibrista, a música de João Bosco e Aldir Blanc, lançada em 1979, e eternizada na voz de Elis Regina, em seu álbum “Essa Mulher” (WEA). E lembro, justamente, de todos os movimentos da vinda daquela artista à nossa Capital, para show no cine Municipal, pois à tarde, eu estivera com ela, o marido, músico e maestro César Camargo Mariano, e os filhos, os pequeninos na época, Pedro Mariano e Maria Rita; todos à borda da piscina do antigo Hotel Tropicana, no centro da cidade. Fomos fazer uma entrevista com a Elis, e a época era ainda mal-assombrada pela ditadura…

Na próxima esquina enquanto aguardo o farol abrir e dar passagem encontro um palhaço que nos aborda com seu sorriso e estira a mão pedindo ajuda. Um cartaz pendurado no pescoço, e a distribuição de pequenos pedaços de papel com o número da conta bancária e o PIX, para quem puder ajudar. Obviamente aquele aí não seria o lugar certo para o palhaço. Ele deveria estar num circo, ou numa escola, ou mesmo numa casa de eventos fazendo a festa da criançada. Mas, não, está mendigando.

Fernanda, outra moça com quem converso, diz de forma agitada que não é rapariga, e que apenas pelo fato de ser negra não admite que os machos se achem no direito de desrespeita-la. De acreditar que podem colocar a mão na bunda dela. Diz que saiu de casa cedo, porque é filha de uma mãe que teve onze filhos e ali na miséria da casa, não dava pra ela ficar. Resolveu sobreviver na rua. Foi olhar carro, tomar conta, lavar, pedir nos bares resto de comida, dormir nas ruas. Mais tarde arranjou um marido que bebia e batia nela e ainda assim teve dois filhos com ele. Numa emboscada dele com outra mulher, sofreu um assalto e foi morto. E ela segue a vida sorrindo, porque acredita em um Deus salvador, porque apesar de ter desviado da igreja evangélica, acha que Deus não vai deixar ela de jeito algum. Fernando é outra pessoa cheia de esperança. Como diz novamente a música, de João Bosco e Aldir Blanc, “a esperança equilibrista/Sabe que o show de todo artista/Tem que continuar”.

Nesses dias em que sopram ventos quase tempestades, em que nos tornam confusos os pensamentos, em que a depressão invade nossos quartos escuros, e derrubam nossos milhares de sonhos, nosso desejo de poder comer e viver com dignidade… Nesses dias em que a Covid nos leva obrigatoriamente, a saber, sobre a solidão e a solidariedade, sobre o que é ter que cair e levantar para continuar e sobreviver, o que nos resta é como que uma corda bamba, para se equilibrar.

Nesses dias, acordo e agradeço por estar ainda no elenco dos eleitos vivos na terra. Nesses dias de nuvens nubladas, a reflexão nos leva ainda a enxergar a esperança e lembrar que temos Deus dentro de nós não podendo assim, fraquejar. Nesses dias, como aprendi com o mestre Chico Xavier, ”nós é que temos que abençoar a vida, para que a vida nos abençoe”. É nós!

A seguir, a letra e o Link do vídeo “O Bêbado e a Equilibrista”, com Elis Regina.

https://youtu.be/6kVBqefGcf4
O bêbado e a equilibrista
(João Bosco – Aldir Blanc)

Caía a tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto me lembrou Carlitos
A lua, tal qual a dona de um bordel
Pedia a cada estrela fria um brilho de aluguel
E nuvens lá no mata-borrão do céu
Chupavam manchas torturadas
Que sufoco
Louco
O bêbado com chapéu-coco
Fazia irreverências mil
Pra noite do Brasil
Meu Brasil
Que sonha com a volta do irmão do Henfil
Com tanta gente que partiu
Num rabo de foguete
Chora
A nossa Pátria mãe gentil
Choram Marias e Clarisses
No solo do Brasil
Mas sei que uma dor assim pungente
Não há de ser inutilmente
A esperança
Dança na corda bamba de sombrinha
E em cada passo dessa linha
Pode se machucar
Azar
A esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista
Tem que continuar


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