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O Amor nos Tempos do Corona

17/04/2020


Passei a vida ouvindo o meu pai falar que vez por outra o mundo se acabava – fosse pela natureza, fosse pelas calamidades. Falava muito de uma onda sinistra que viria para varrer os cantos da terra. Era assim o ciclo natural das coisas e da vida. Como ele era filósofo por princípio, achava aquelas ideias longe da minha vida de menina. Mas depois,  comecei a ficar cismada em morar perto da praia. Até que um dia , meu filho caçula, Daniel, quando criança, me perguntou porque o mar ficava parado e nunca avançava calçada adentro. Até hoje, sonho com a tal onda do meu pai, e da que Daniel perguntava.

Já adulta, tomei tento com o tamanho da minha /nossa fragilidade, que foi aumentando com as histórias de George Orwell – 1984; Aldous Huxley – Admirável Mundo Novo; e Saramago – Ensaios sobre a Cegueira, e mais um montão de filmes sobre as catástrofes (vírus, tsunamis, terremotos, ondas… e eu a lembrar das teses do meu pai.

Pois é que chegou a hora! E o Coronavírus veio arrebatador, parando o planeta e nos deixando estarrecidos frente à nossa  impotência e medo do que está por vir. Seja agora ou depois. Com essa ameaça, a gente entende que os inimigos ocultos estarão à espreita e quem garante que esse seja o primeiro de uma série. Estamos numa “Emergência Sanitária”!

E logo chegamos às novas etiquetas (a da distância e de  espirrar no cotovelo); formas de viver (isolamento e quarentena), e palavras dos novos protocolos: transmissão comunitária,  estado de calamidade, cura, curva, ritmo de contágio, home office, pânico, banzo, colapso, cloroquina, clausura, álcool gel, lavar mãos,  ficar em casa, fecha lojas, fecha escolas, fecha fronteiras, fecha o mundo. Fecha! Paramédicos, vacinas, respirar, coriza, ardência na garganta, febre, máscaras, luvas, novas programações nas TVs, e novas ordens mundiais.

Infelizmente, aqui no Brasil tudo vai ser diferente e pior. Temos um tamanho de gigante pela própria natureza; uma desigualdade social que não tem mapa que dê conta e um homem ignorante , bronco e arrogante na presidência. O país à deriva não fosse o Ministro da Saúde e os médicos infectologistas, sanitaristas das Instituições públicas e afins carregando o piano  do inimigo invisível. Para eles e por eles, batemos panelas à noite!

Mas, diante de tantas tragédias, mortes, cremações em séries e tantos infortúnios, eu nem mais estou ligando para minha viagem à Itália, que seria agora início de Abril. Viagem para meu país dos sonhos, e à Toscana de novo. Lá sou amiga dos vinhos, dos molhos, e das paisagens terracota. A viagem agora é outra, pra dentro de casa, de mim e das minhas circunstâncias.

Nos tempos de recolhimento e solidão, temos que olhar pra dentro. Muita gente não sabe, não quer, não consegue. Vem a ansiedade extremada. O medo. Até o pânico. Por outro lado temos visto sentimentos de humanidade, de solidariedade que há muito não víamos. A união. A compaixão. A consciência  da efemeridade da vida. Todos os dias assistimos exemplos de gente que através da alegria, cantam e dançam, como nos terraços italianos. Batucam, dividem o gel (não é Gracita?); doam dinheiro para hospitais; cedem seus espaços para os enfermos;  cuidam dos seus velhos e das suas crianças; e fazem máscaras artesanais, com amor e carinho (não é Inger Mara? Hirlen? ). Ou dividem msg lindas pelos grupos – tenho recebido cantorias, clipes, óperas, receitas delícia, – e tantas outras formas de estarmos juntos, mesmo de longe.

Na falta do contato, melhor folhear o Livro dos Abraços (Eduardo Galeano). Dizer Mantras e fazer meditações. Ler, maratonar em Séries (The Murders of Vilhalla, The English Game), em filmes; falar ao fone com amigos; ver a neta Luísa batendo palminhas pelo facetime; tomar um vinho no terraço; escutar o silêncio e dar pausas maiores; fazer a siesta, cozinhar, lavar a louça, a roupa, cuidar de arrumar as gavetas, escrever; celebrar a chegada de Lucas (que nasceu  agorinha, Parabéns pra minha professora de Pilates Isabelli e seu marido César), e não deixar me abater  tanto pela solidão do mundo.

E a minha própria.

Saúde!

Ana Adelaide Peixoto

*Artigo publicado também em A União

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