Novos Rumos e a Transição Planetária

29/03/2020


Papa Francisco em Bêncão Urbi et Orbi para a Praça de São Pedro vazia no último dia 27. (Foto: Arquivo)

* Aos meus filhos Lu, Leilah, Julinha, André Luiz e Juninho.

 

Naquela tarde, sentamos numa cafeteria onde havíamos marcado encontro para falar de nós mesmos, da vida, dos novos rumos. Como chegara antes do horário agendado, abri um livro e solicitei uma água enquanto aguardara a minha filha Júlia. Andava perplexo, pensativo e ainda lembrando a imagem solitária do Papa Francisco celebrando uma missa para milhares com uma plateia invisível. Não entendia muito bem se estava nervoso, confuso, insatisfeito, ansioso, com medo. Se me faltava alegria, esperança, confiança, disposição, coragem para enfrentar o momento.
O cenário era muito parecido com aquela velha canção do Raul Seixas, ‘O dia em que a Terra parou’, em que todos ficam em casa e poucos, pouquíssimos saiam às ruas. Lembrei também outra música, de Paulinho Moska, ‘O ultimo dia’, em que ele pergunta: ‘Meu amor, o que você faria se só te restasse um dia, o que você faria se o mundo fosse acabar?’ E sugere algumas opções como sair pelado e tomar banho de chuva ou entrar no mar com roupa e tudo…
Júlia não demorou. Chegou, ameaçou dar um beijinho, mas como mandam as regras para prevenir contágio infeccioso, manteve a distância e sentou. Nossa conversa seria sobre uma pequena reflexão do momento, o que se passava, o que realmente estava acontecendo ao redor… Tudo parecia misturado e complexo, e inexplicável. De repente um terror tomou conta da China, da Itália, da Europa, América do Norte, e chegara a nossa América ameaçando a tudo e todos.
As bolsas despencaram, os gestores andavam de um para outro lado sem saber o que fazer, e tomavam medidas drásticas sem obter resultado que pudesse conter a epidemia, e nesse momento a Organização Mundial da Saúde anunciara que se tratava de uma pandemia, que assolava o planeta sem limites e traria consequências gravíssimas e que, por enquanto, não havia vacina e o melhor mesmo era todos ficarem em casa. Enquanto isso, o número de pacientes infectados no mundo só aumentava, o numero de mortes alimentava as estatísticas de forma crescente, e a vida de todos estava por um risco…
Júlia, diferente de mim, tinha toda uma perspectiva de vida pela frente, era jovem, estudava, dançava, focava nos objetivos de jovem que quer vencer na vida. Busquei saber suas ideias, se lhe restavam dúvidas, medos, e iniciei falando dos contrastes humanos da nossa geração. Da experiência todas que havia vivido desde o século passado com as propostas de mudança de comportamento no planeta. Avanços em toda parte, na família, na postura feminina, nos diálogos entre jovens e seus pais, a revolução a partir dos Beatles com cabelos longos, calças jeans do country americano, a liberação das drogas, o amor livre e o importante marco do Festival Woodstok. A modernização dos equipamentos industriais fortalecendo a passagem da lavoura para a indústria e daí para a tecnologia. Falei sobre a primeira viagem do homem a lua, a TV a cor, os computadores, a tecnologia, a nanotecnologia, o design americano, a moda, os costumes, a música, o teatro, a produção cinematográfica, os desafios todos de nosso cotidiano, enfim, toda uma vida de experiências belas e relevantes para continuarmos nossa missão.
Naquele momento, Júlia acompanhava com olhar quase parado, levanta o dedinho e pergunta: – Pai, e qual a nossa missão aqui na Terra? O mundo vai se acabar?
Parei um pouco, respirei, continuei… – Minha filha, Deus seria injusto e nada bonzinho se nos propusesse todo esse legado, um planeta inteiro com mar, rios, vegetação, minerais, alimento, água, ar, sol, vida, e nos deixasse a toa, ao abandono de nossas próprias forças. Seríamos incapazes de mudar, evoluir.
Temos ainda muita batalha a vencer, nossos próprios gestos não combinam atitudes leais de quem representantes de um Deus perfeito e justo. Nossos pensamentos trabalham ainda na faixa vibratória inferior não podendo alcançar maiores patamares do que o plano das angustias, da inveja, do ciúme, da ganância, da política equivocada para o bem e a paz. Sequer encontramos respostas para o tratamento da gripe, como também não sabemos lidar com nossas emoções pautando por baixo e nos deixando levar pelos índices de depressão, pânico, medo. Há um abismo de loucura e egoísmo, de fraquezas no engenho dos homens, que precisa logo, logo ser transformado para o bem maior. Se por um lado a inteligência e o rico conhecimento, por outro a falta de estrutura nas pobres edificações dos sentimentos.
O ser humano ainda não aprendeu harmonizar com o universo, e padece num mundo de provas e expiações, necessitando avançar e aprender, por exemplo, que a simples prece tem poder científico de intercâmbio com o Divino. O ser humano precisa urgentemente diminuir a distância de Deus e abrir-se para o mundo espiritual, abrir-se para viagens interplanetárias de maior amplitude do ser. Precisa de propostas que revelem seu íntimo e destaque o encontro com si mesmo, revelando suas potencialidades de futuro. Estamos ainda na infância moral, em que os desejos fazem parte das vontades ataviadas ao materialismo, ao dinheiro, a concorrência em vez da competência e da conexão.
Quando enfim trocarmos a competição, pela conexão, quando estivermos preparados para abrir mão do nosso orgulho, do nosso ego, de posturas outras que esbarram no ser antigo, conservador, ditador, opressor; aí sim, partiremos para um mundo melhor. Esse é um exercício de aprimoramento evolutivo, edificante.
Quando chegarmos lá, e já estamos passando por isso apesar de tanta dor e sofrimento, teremos conquistado o merecimento de viver num mundo melhor, um mundo de regeneração em que todos trabalham para o bem e se pratica apenas o bem e o amor. Por isso, ainda as doenças, as tragédias, a soberba, a corrupção, os tsunamis, as pandemias, tudo como que uma grande faxina no planeta. Para que nos seja possível uma nave de amor abençoada pelo Deus da criação. Eis o cenário, eis o plano dos novos rumos. Por enquanto estamos na grande cena de uma transição planetária.
Júlia nesse momento estava com os olhos margeados de lágrimas. Olhei-a, solicitei que pedisse a conta e disse que continuaríamos e ainda nos encontraríamos mais adiante, no planeta de regeneração e amor…

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