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Juros reais altos em alta

03/03/2017


Foto: autor desconhecido.

O economista André Lara Resende abriu um oportuno debate sobre a desnecessidade de juros tão elevados no país. Será que, diante da forte queda da inflação, a taxa Selic não deve cair para um nível que não atrapalhe a retomada do crescimento da economia?

A atuação de longo prazo da política brasileira de juros altos, que vem de outubro de 2014, teria contribuído para aumentar a inflação. A razão estaria nos efeitos adversos que isso provoca nos deficit e endividamento públicos e nas expectativas, pelo risco de o governo não pagar suas dívidas.

Essa crítica causou perplexidade entre nossos economistas ortodoxos. O contra- ataque veio rápido, mas equivocado, ao supor que, para Resende, a queda dos juros reduz a inflação. Na realidade, ele afirmou que, no Brasil, há mais de dois anos, os juros altos foram uma das causas da inflação elevada.

A questão de fundo é o que vem fazendo o Banco Central (BC) na redução da taxa de básica de juros, a partir de outubro de 2016. Essa política ultraconservadora está muito além do que preveem os mercados sobre o comportamento dos juros e inflação.

É importante ressaltar que é a taxa real de juros que interessa. Pois bem, o BC fez essa taxa explodir. Desde Irving Fisher (1867-1947) sabe-se que, sem ilusão monetária, as decisões econômicas relevantes guiam-se pela taxa real de juros, que é a taxa nominal de juros menos a inflação.

O BC aumentou demais a taxa básica real de juros. Em dezembro/15, essa taxa foi de 2,97%, Selic de 14,25% menos IPCA de 11,28%. Em outubro/16 passou para 6,13%, com Selic de 14% e IPCA de 7,87%. Em janeiro/17 pulou para 7,65%, a Selic caiu para 13% e o IPCA para 5,35%.

Na sua reunião de 22.02.17, o Comitê de Política Monetária (COPOM) do BC reduziu a taxa Selic para 12,25%. Ocorre que, para os mercados, a inflação esperada caiu para 4,43%. O que significa dizer que, mais uma vez, elevou-se a já muito alta taxa básica real de juros, agora de 7,65% para 7,82%.

Nesse cenário, a atual política monetária impõe pesados ônus ao país e dificulta o ajuste das finanças públicas. Se a taxa básica real de juros não cair significativamente, nos próximos seis meses, o crescimento econômico ficará abaixo do possível, no biênio 2017-18. A relação deficit público nominal/PIB não convergirá para 4% e a dívida pública continuará a ter um crescimento automático sem gerar qualquer benefício social.

A política monetária do BC se autoassumiu como única no controle da inflação, ao impedir que o ajuste fiscal atue eficientemente nesse sentido. O que é um excesso de protagonismo, carente de bom senso e fundamentos técnicos e teóricos consistentes e convincentes. Se isso não mudar, pode custar ao Brasil dois anos de quase estagnação econômica e a não recuperação de milhões de empregos.

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