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Hildeberto e Cartaxo harmonizando pensamentos sobre o Pavilhão do Chá

23/10/2017


Foto: autor desconhecido.

 

Descobri em uma das crônicas do escritor Hildeberto Barbosa Filho o seu espírito premonitório quando se referia ao uso ideal do Pavilhão do Chá. Parece até que o prefeito Luciano Cartaxo leu sua sugestão, ao transformar aquele monumento histórico num Centro Cultural que passa a acolher todas essas manifestações da literatura e da arte de nossa terra. Transcrevo-a para que o leitor observe o que estou afirmando.

“O PAVILHÃO DOS LIVROS”

Gonzaga Rodrigues fala num “Pavilhão sem Chá”; Martinho Moreira Franco num “Pavilhão com Chope”. Sem discordar da irônica sutileza de Gonzaga nem da lúdica sugestão de Martinho, penso também na possibilidade de um “Pavilhão com Livros”. Livros à mancheias, de todos os tipos e de todas as idades, e ao gosto curioso dos leitores mais diferentes.

Pode ser com chá; pode ser com chope, ou com qualquer néctar etílico, sem dispensar, claro, o sabor das iguarias, tira-gostos e guloseimas da gastronomia nordestina, tanto ao tempero sertanejo, quanto ao calibre litorâneo. Algo assim como a praça central de Florianópolis ou arredores da Sacre Coeur, em Montmartre (Paris).

Livros novos, livros usados, livros comuns e livros raros, numa permanente feira literária e bibliográfica que pudesse abrigar os de casa e os de fora, sob a tenda aberta livre dos dias e das noites num dos recantos mais aprazíveis do nosso sítio urbano.

De livros, mas também de selos, moedas, artes plásticas, cartões e outros objetos do mais variado e fino artesanato, poderia ser esse pavilhão como imagino a praça do povo e como uma paisagem da cultura, experimentada na clareira mais rica dos nossos rituais cotidianos. Pintagóis, belgas e outras espécies de pássaros que não ferem a lei ambiental serão bem-vindos enquanto ilustração de harmonia entre natureza e cultura (aos domingos, ao lado da catedral de Notre Dame, há uma singela feira de passarinhos).

Nesse ou naquele banco, sob a copa dessa ou daquela árvore, envolvidas pela sombra histórica e estética do Coreto, seria possível, sim, divisar as figuras raras de nossa flora política, artística, científica e literária, animada pelo fogo do diálogo e da prosa, tocada pelas lições renováveis da imaginação, da memória e da fantasia.

Gonzaga, por exemplo, na sua oralidade orgânica, dividiria, com Wills Leal, a paixão filipeica que os fazem amar essa cidade, sobretudo aquela cidade que ainda lateja por entre as ruínas históricas que sustentam seus restos de beleza. O poeta Sérgio Castro Pinto, da calçada asseada dos seus versos, reporia, em claras imagens, a dança arcaica dos velhos tabajaras. A tais imagens, e dentro da lógica antigeométrica do olhar lírico, viriam juntar-se os ritmos translúcidos dos sonetos sonados que Jomar Morais Souto escreveu para o seu “itinerário”.

Em outra clave, Guilherme d´Avila Lins daria lições de história colonial aos de casa e aos de fora, explicando os detalhes arquitetônicos do belo Pavilhão. Humberto Melo viria do Tribunal de Justiça nos contar causos pitorescos do mundo forense, e todos, conhecidos, reconhecidos, consagrados e anônimos, faríamos do Pavilhão uma geografia viva, um monumento plural, uma oferta memorável de símbolos e afetos; uma casa da cidadania, sim, mas que não se reduzisse apenas a serviços burocráticos e institucionais, uma casa que fosse como o amanhã do poema de João Cabral de Melo Neto, “se encorpando em telas, entre todos/se erguendo tendas, onde entrem todos/se entretendo para todos, no toldo/(a manhã) que plana livre de armação/A manhã, toldo de um tecido tão aéreo/que, tecido, se eleva por si: luz do balão”.
 

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