Rui Leitão

Jornalista e escritor.

Política

Foi golpe, sim


20/11/2021

O historiador, produtor cultural e advogado Rui Leitão

A extrema direita brasileira continua insistindo em querer reescrever a história na conformidade dos seus interesses. O presidente da república, por exemplo, teima em classificar o golpe de 64 como tendo sido um ato revolucionário. E determinou aos censores do Enem, por ele nomeados, que assim fosse tratado nas questões das provas, porque precisavam ficar com a “cara do seu governo”.

Foi golpe, sim. Como ignorar os assassinatos, as prisões arbitrárias, as torturas, praticadas pelo regime ditatorial que marcaram uma página negra da nossa história? Só na cabeça doentia de um apaixonado por ditaduras isso pode ser admitido. Uma visão descolada da realidade para atender anseios ideológicos. Não há como negar as evidências. Foi uma articulação golpista civil-militar para a tomada do poder.

O golpe foi iniciado já em 1961, quando criaram vários obstáculos para a posse de Jango como presidente, implantando às pressas o parlamentarismo, om o intuito de reduzir os poderes do Executivo. A sua posse incomodou, não só aos grupos conservadores de nosso país, como, também, ao governo dos Estados Unidos, que passou a financiar lideranças empresariais e políticos da direita nacional. A imprensa brasileira contribuiu no processo de desestabilização do governo Jango.

Como se verifica atualmente, a sociedade brasileira estava rachada ideologicamente entre esquerda e direita. No final de 1963, os ultraconservadores se articularam com as Forças Armadas pela tomada do poder. O contexto histórico já demonstrava o enfraquecimento do governo Jango. A situação do Brasil mostrava-se extremamente instável. O comício de 13 de março, na Central do Brasil, no Rio de Janeiro, tendo a participação de mais de duzentas mil pessoas, quando o presidente assumiu seu compromisso com as reformas de base, precipitou os acontecimentos em direção ao golpe.

No dia 19 de março aconteceu a reação conservadora na Marcha da Família com Deus pela Liberdade, numa passeata que mobilizou mais de quinhentas mil pessoas. Foi o bastante para os golpistas se sentirem fortalecidos e iniciarem o ato final que determinou a intervenção dos militares na política brasileira.

Jango ficou isolado quando perdeu o apoio de seu aliado no exército, Amaury Kruel, afastando as possibilidades de resistência interna nos quadros das Forças Armadas. O golpe então se consumou. Como chamar isso de revolução? Ainda que as coincidências se repitam, com os militares querendo assumir a tutela sobre o poder político, o contexto histórico é bem diferente do que se viu em 1964. Os tempos são outros, ditadura nunca mais. Mas, o que não pode jamais ser negado é que em 1964, aconteceu um golpe civil-militar e não uma revolução. Por mais que Bolsonaro queira mudar a verdade histórica.


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