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Flavio Tavares & A Linha do Sonho


01/08/2017

Foto: autor desconhecido.

Conheci Flávio Tavares adolescente, e começamos a namorar quando eu tinha 15 anos, já no primeiro olhar, e nos casamos, eu com 19 e ele com 23. Duas crianças. Ficava encantada ao vê-lo pintar. Surgir as cores, formas, vida. Durante 10 anos, acompanhei essa experiência sensorial/gestual /orgânica de outra pessoa, mas que eu, ainda em formação da minha própria identidade intelectual, absorvia as coisas da imaginação, tinha espasmos de felicidade ao ver uma tela surgir, e sofria ao vê-lo criar, ou não criar, mergulhar no seu trabalho. Ele, muito jovem e com muitas inquietações sobre o desenho, a pintura, sua identidade, suas crises de criação, tão normais a quem vive nessa e dessa vertigem. Até hoje sou plugada nesse processo seja de qual arte for.

E nessa vida de artista plástico, tudo acontece na mente de quem se mistura às tintas. Flávio era inundado pelas musas, flores, ramas, pela história familiar (sua mãe, pai e irmãos, sua avó), pelas suas mulheres imaginárias/e/ou reais/, pela fauna e flora brasileira/nordestina, pela Literatura (tantos tantos nomes como José Lins, Augusto dos Anjos e Ariano Suassuna , só para citar alguns), e claro tinha também as sombras, o inferno, o sofrimento, o lado sombrio da vida, as amarguras, os demônios todos (e quem sabe os dele principalmente!), e violências tantas (até porque vivíamos os tempos de Ditadura na década de 70). Confesso que essas figuras “feias” e assombrosas me incomodavam. Ainda não tinha a percepção de sentir a magnitude da “feiura” como conceito estético. Muito mais me encantavam os azuis, os pássaros, as casas simbólicas, os espaços imaginários e vertiginosos. O tempo! Mas, somos feito da matéria ambígua e paradoxal, e temos a luz e sombra dentro de nós todos. Feliz do artista que consegue combinar esse percurso, dando vazão à sua imaginação e expurgando ou não seus demônios e seus anjos.

No último mês de maio, Flavio fez uma exposição monumental na Usina Cultural Energisa, cujo título foi – A linha do sonho, e teve como homenageado, seu querido amigo e tutor artístico, Hermano José. A exposição foi apresentada pelo Ministério da Cultura, e teve a curadoria do também artista plástico, Dyógenes Chaves. Com fotografias do seu fiel expert e fotógrafo que dispensa adjetivos, Antonio David, e texto primoroso de apresentação do artista Raul Córdula – “Pintar é congelar a labareda”.

Nesse trabalho ele experimenta uma nova forma de pintar. Tomando conhecimento e gosto pela caneta-pincel, cria um traço único ininterrupto. Como se a linha, o bico, o contorno não pudessem parar. A pressa da tecnologia o invade nesses desenhos de uma sentada só. Não, não é um conto (como dizia Cortazar!), é um ponto! Um ponto de onde tudo começa. E a partir desse lugar, pássaros, pavões emplumados, onças à espreita, touros Almodovarianos, peixes, serpentes, bichos de todos os monstros, suavidades plenas, mulheres douradas, em fundo branco, preto, e muitos vermelhos, e claro, as danças das sereias, e os mergulhos profundos – na água, no vento, no ar. Mergulhar nas profundezas do ser profundo de cada um. Flávio mergulha! Nas cavalgadas do fio da navalha. Fio único da mulher sozinha. Do des-equilíbrio. Dos limites tênues entre um lado e outro. Entre um pássaro e outro. Entre um mergulho e outro. Que êxtase! De quem admira e contempla!
O dia da exposição foi uma festa. Das artes plásticas. Mas não só. Lá estava uma cidade inteira. Profissionais das Artes, jornalistas, autoridades, socialites, Uma geração já meio nostálgica– da Rua da Palmeira (onde Flávio viveu a vida familiar com seus pais e irmãos), até os dias de hoje, quando jovens aprendizes o visitam em aulas vivenciais no seu ateliê-casa, no Altiplano. Sim! Amigos da vida toda também se cruzavam na noite. Gente do Liceu, dos cine-clubes, das Lourdinas, da minha adolescência também, dos cinemas, da Lagoa, enfim, um encontro com a memória de várias vidas de cada um e de todos nós. A festa de Flávio não é só na pintura, mas nas amizades, no afeto maior que une pessoas que se amam vida afora.

Hoje Flávio transita com maestria, unanimidade e muitas certezas do seu traço, seu gesto imperioso, por entre técnicas do óleo, desenho, guache, crayons, e mais recentemente com a tecnologia das cores cítricas e ininterruptas. Quando folheio seus livros/coletânea dos quadros, fico assustada como que pintou tanto ao longo das suas mais de seis décadas de vida. Uma vida na prancheta! Lambuzado dos vermelhos magenta e das terebentinas. Desde menino rascunhando, herdado do seu pai Dr. Arnaldo, o gosto pelo bico de pena, Flávio é uma imensidão de obras que se confundem com ele mesmo, com a cidade, e com cada um de nós que, acompanhamos seu trabalho há tantos tempos. Eu particularmente, sempre me emociono quando vejo seus traços e cores, e mesmo depois de tantos anos, e tantos caminhos cruzados, contemplo sua arte com uma intimidade que só poderia ter raízes no tempo e no amor.


E fico aqui com meus botões, a pensar nesses azuis, as cores mais quentes; nos vermelhos, fraternos e apaixonantes; e nos brancos e dourados – e em como suaves são as noites!


Ana Adelaide Peixoto – João Pessoa 31 de maio, 2017
 

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