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Eu vi uma Pipa voando…


12/09/2017

Foto: autor desconhecido.

No tempo! Uma Pipa que não é papagaio. Uma Pipa praia. Que se desmanchou no céu das minhas lembranças do tempo. Lá longe. Por um fio de nylon dos anos. Dos anos que rodavam as praias desertas e precárias. Mas de beleza calma, tranquila e por onde meus olhos contemplavam o mar.

A primeira vez que fui à Praia da Pipa (RN), foi há quarenta anos atrás. A praia de pescadores só tinha uma igrejinha, algumas palhoças e uma natureza exuberante. Acampamos ao lado da Igreja, no meio da rua – imaginem! Bebé, minha irmã, estava grávida do seu filho mais velho Raphael, hoje um homem feito, como se diz. Aproveitamos esse passeio e esticamos por Tibau do Sul, pelos rios, manguezais, e caminhos estranhos e desertos. Fotos lindas que eu ainda tenho, por onde me vejo jovem, num retrato em branco e preto, exatamente como na música de Chico Buarque.

Depois, já em 1983, voltei num carnaval. Aí quem estava grávida era eu. De Lucas. Ficamos novamente numa tenda à beira mar, com churrasco de peixe o dia todo. Pipa não tinha loja, nem pousada, nem nada. Só os pescadores para vender o peixe. Mas já algumas casas do pessoal de Goianinha. Uma dessas famílias nos emprestaram o chuveiro do quintal, onde tomávamos banho. Passávamos o dia de biquine, e à tarde passavam os papangus e nós brincávamos o carnaval. Íamos a pé à Praia dos Golfinhos, e à Praia do Amor, pois nem tinha estrada, nem escadaria de acesso. Tínhamos a imensidão. A paisagem sem fim. O azul infinito. As conchas e o som das ondas. Tostávamos ao sol. O Chapadão era o lugar onde íamos ficar chapados. Eram os anos dos delírios! A paisagem, as cores contrastantes e o silêncio, eram propício às outras dimensões de toda e qualquer suspensão da realidade. Claro que eu, responsável com a gravidez, só ficava na água de côco! Lucas agradeceu!

Aquela praia cheia de pedras, terras vermelhas, e praias desertas era o paraíso. Aliás, como já falei em crônicas outras, tive o luxo de conhecer alguns desses paraísos na mesma época. Baía Formosa e Barra de Cunhaú e Canguaretama (RN), Canoa Quebrada (CE), Praia do Francês (Al) e Sagi (PB). Um litoral todo meu.

Em Baía Formosa, foram décadas indo e vindo nos feriadões, férias e carnavais. Atrás dos surfistas, das ervas, das doideiras de uma década, danças ao som de Coração Bobo de Alceu Valença, madrugadas e amores perdidos. Em Canoa: banho de cuia por alguns trocados e farofa de alho com camarão ao dendê! E haja perna pra subir duna! Também acampada num vendaval de areias vermelhas. Francês? Um azul e toda sua imensidão. Praia deserta e uma única barraca onde comíamos Peixe-Carapeba com cerveja toda a tarde. Café da manhã na barraca e lavávamos a louça areando as panelas no mar. Céu de estrelas! Todo nosso! Silêncio e escuridão. Tudo com segurança e somente com os medos da juventude e seus arroubos. Em Sagi comprei um terreno inexistente, uma casa de areia que se perdeu no vendaval. Em Canguaretama comi a melhor peixada da vida, feita com cheiro verde pelo caseiro do lugar que nos acolheu- nunca esqueci agradeço até hoje. Em Barra de Cunhaú , um rio a perder de vista. E Pipa – uma lembrança de uma vila querida.

Claro que continuei a ir à Pipa nos anos seguintes e por todo esse tempo. Com os filhos, irmãs, amigos. Aí já uma cidade charmosa, cheia de turistas, pousadas e lugares pitorescos. Lembro do tempo que só tinha a Pizza Brasil e os meninos (filhos e sobrinhos) apostavam aos pedaços. E meninos comem! As caminhadas! Os golfinhos a pularem na nossa frente! E o pão caseiro da pousada Berro do Jegue. Meus sobrinhos gringos chegavam do País de Gales e já queriam pinotar naquela imensidão de mar com água morninha. Aproveitamos tanto tanto. Tanto mar, sempre!

Semana passada voltei à Pipa. Já há dois anos que não ia. E fiquei muito surpresa com o charme que continua, ruinhas tortuosas e enladeiradas. Cantinho dos céus! A língua falada? Espanhol. Pipa foi invadida por Argentinos e Chilenos, e aos poucos percebemos hábitos outros também. As praias, antes desertas e paradisíacas, agora apinhadas de barracas e cadeiras pagas; sombrinhas pagas; garçons pagos; mas a paisagem? Ah! Essa ninguém tira.

E um lugar que bares/restaurantes tem nomes de Tranquilo, Lua Cheia e Aprecie, pode-se dizer que, ainda continua lindo.

Fiquei a apreciar. Com um copo na mão e o olhar a perder de vista. No tempo, inclusive. Feito uma tartaruga sem pressa e sem vontade de sair do lugar.

Ana Adelaide Peixoto – João Pessoa 11 de Setembro, 2017
 

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