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Direita capitalista e esquerda socialista

10/11/2017


Foto: autor desconhecido.

As pregações político-ideológicas de direita e esquerda no Brasil, assim como em todo o mundo, cada uma a seu modo, prometem o paraíso. Os resultados práticos estão muito longe disso. Mas os seus adeptos continuam com os velhos e requentados discursos retóricos que supõem dotados de sólidos fundamentos filosóficos e científicos.

Para a direita capitalista, as sociedades guiadas pelo ideário liberal promoveriam naturalmente a liberdade individual e a solução ótima da vida econômica, com o máximo de bem-estar. Cada pessoa buscaria livremente os seus interesses com base no mérito. A intervenção do Estado nesse sistema espontâneo geraria ineficiência e ônus privados e sociais.

Essa liberdade liberal num mundo pleno de virtude e eficiência está mais para utopia. Os pressupostos teóricos não existem. Na realidade, as condições sociais, políticas e econômicas desiguais dos indivíduos e famílias impedem a democratização das oportunidades. A liberdade positiva, que significa a capacidade de poder agir, é privilégio de poucos e não um direito de todos.

As sociedades capitalistas nascem sobre bases sociais, políticas e econômicas desiguais e se desenvolvem aprofundando as desigualdades. Aí são normais a intervenção do Estado na vida dos indivíduos e as crises econômicas cíclicas periódicas. O capitalismo real está longe de ser a expressão maior da racionalidade e, menos ainda, da felicidade humana.

A esquerda anticapitalista propõe a implantação do socialismo. O feito essencial seria o fim da submissão, alienação e exploração dos trabalhadores, como síntese de uma consciência libertadora. As sociedades assim construídas teriam estruturas socioeconômicas e politicas justas e igualitárias e, sobre elas, correlatas superestruturas jurídica, religiosa, artística e filosófica.

Mesmo nos países em que movimentos sociais erradicaram as relações de produção capitalistas, o socialismo real ficou distante do idealmente concebido. Isto porque, em coerência com as teorizações mais elaboradas de Karl Marx, não havia as condições histórias por ele preconizadas como indispensáveis à emergência da sociedade razoável do futuro.

À luz do materialismo histórico-dialético de Marx, o capitalismo tendia a autossuperação, no auge de suas contradições. Nesse estágio, o desenvolvimento das forças produtivas e a utilização social plena dos meios de produção, trabalho, etc. sancionariam a desnecessidade das relações sociais capitalistas. Não foi assim, nos experimentos socialistas relevantes (Rússia, União soviética, China, Cuba, etc.).

Esse socialismo teve pouco a ver com Marx e muito com as ideias de Lenin e Gramsci sobre revoluções sociais e culturais pela conquista do poder. Implantaram-se ditaduras ditas do proletariado, em vez de democracias efetivamente sociais. Não por acaso, os avanços das forças produtivas continuaram desvinculados de um padrão de desenvolvimento ecologicamente sustentável com justiça e igualdade social, econômica e política.

O capitalismo e o socialismo reais não resolvem, como propõem, os problemas da sociedade. O mundo seria muito mais razoável se houvesse liberdade democrática efetiva e desenvolvimento sustentável contínuo, com pleno emprego e distribuição mais equitativa da riqueza e da renda. Tudo isso é compatível com as referidas ideias de direita e esquerda.

O problema é que historicamente as sociedades capitalistas ou socialistas funcionam com uma forte força inercial conservadora. Sempre há um expressivo passivo de liberdade positiva sanável. Isto significa desperdício de capacidade técnica e econômica de prover necessidades materiais e espirituais essenciais e se ter mais liberdade liberal e democrática.
 

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