Mulher

Com as Mulheres

18/03/2020


Nesses mais de vinte anos que escrevo sobre e para as mulheres, foram tantos assuntos! Opressão feminina, domesticidade, invisibilidade das mulheres. Solidão feminina. Construção de identidades e problemas de gênero. As solteiras, as casadas , as separadas, as viúvas e todas, ou quase todas, as suas  circunstâncias. Vida sexual, conquistas e tabus enfrentados. Meninas x Meninos! Menstruação e menopausa, e suas curvas de cólicas e insônias.

Escrevi também sobre violência doméstica, estupro, assédio e todo esse horror das mulheres mortas. Esse, o assunto que mais dói. Que  atravessa séculos e que feminismo nenhum dá conta. Assim como a tripla jornada e a divisão das tarefas ditas domésticas. O privado versus público e também o significado disso. Há tantas décadas vimos as tais ondas do feminismo e todo o movimento e agendas a que se pertence.

Escrita feminina? Poeta ou poetisa? Os caminhos do texto! Marina Colasanti e tantas outras teóricas, o tanto que me responderam, algumas vezes, sobre o existir dessas letras.

A loucura feminina, a histeria, e também o que Freud des-entendia sobre as mulheres! Essa pauta também uma tristeza. Assistir o des-mantelo da sanidade das mulheres, quando não tinham saída para seus desejos mais sombrios. O suicídio como estratégia dessa fuga. E quantas vidas perdidas nesses mares do não dito e não vivido.

Já escrevi também sobre as primeiras que tanto pensaram e se anteciparam e deixaram o rastro de suas ideias feministas, mesmo que o termo ainda não existisse como tal: Safo, Christine de Pisano, Artemísia Genileschi, Jane Austen, Mary Woolstonecraft e Maria Firmina dos Reis, só para citar algumas precursoras!

Sobre os encontros e des-encontros das mulheres consigo mesmas ao longo de séculos. Os jardins de Alice Walker, a poesia de Maya Angelou; os quartos de Virginia Woolf; a solidão das mulheres de Clarice Lispector; o papel de parede de Charlotte Perking Gilman; as lobas de Clarissa Pinkola Estés; a maternidade e todas as suas complexidades que Adrienne Rich desvendou e desarticulou finalmente o não/desejo de ser mãe e as não delícias desse lugar sagrado e inquestinonável que nos impõe. O tornar-se mulher de Simone de Beavuoir; As loucas das casas de Rosa Montero; o feminismo branco, negro, lésbico. Francês, inglês, americano, e brasileiro – todas as suas diferenças, abordagens, agendas e vivências.

Também assisto a negação do feminismo por outra Onda, talvez a Quarta, onde os movimentos midiáticos e suas mulheres nela representadas,  acham que tudo já estava pronto quando vimos as Guerrilas Girls encapuzadas desfilarem de vadias, re-significando o termo e se apropriando desse mesmo termo. Mas aí já não foi na terceira Onda? E os mares revoltos da divisão das demandas. Faça você mesmo! Use batom e sutiã e salto alto! O resgate de símbolos ditos femininos, mas agora com o lugar de fala. E de escolha.

Por isso, passado o dia 8 de Março, eu aqui celebro as conquistas de tantos séculos, de tantos nomes, extraordinárias e anônimas; nossas incompletudes, sororidade, poderes tantos e tão menos ainda, mas a alegria feminina. Aquela que transforma as maiores adversidades em sabedoria.

Viva as Mulheres!

Ana Adelaide Peixoto

*Artigo publicado também no Jornal A União.

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