Saúde

Cloroquina: do obscurantismo político ao obscurantismo científico

17/05/2020


E mais um ministro da saúde foi demitido. O ex-ministro Nelson Teich não passou nem um mês no cargo. O ministro anterior, Senhor Luiz Henrique Mandetta, também foi demitido e pelo mesmo motivo. Me parece que qualquer um que assuma o ministério da saúde, e queira permanecer no cargo, terá que aceitar que a cloroquina é um remédio milagroso.

Deve-se, a partida, dizer que Cloroquina é uma grande arma contra o covid-19, mas a narrativa de seu uso de forma universal e milagroso é essencial para o discurso de nosso mandatário maior. Ele tem que dizer que existe uma cura fácil porque ele quer o fim do isolamento social a todo custo. Até pensou em fazer um pronunciamento em cadeia nacional de televisão no sábado, com certeza ao som de panelas, convocando seus aliados a combater os defensores do isolamento.  No entendimento dele, o isolamento vai trazer danos irreparáveis a economia. Sem uma economia em bom estado, a probabilidade de sua reeleição diminui drasticamente.

Ele precisa de um remédio em que a população acredite que cura, não tenha efeitos colaterais graves e pode ser acessada livremente e é isto que os ministros demitidos não aceitaram dizer por que implica que alguém pode tomar em casa, apresentar efeitos colaterais graves, e vir a óbito.  Ele usa argumentos que os estatísticos denominam de correlação espúria, aquela no qual a relação existente entre duas situações não apresenta relação de causa e efeito, tais como, “um dos efeitos colaterais da cloroquina, remédio baratíssimo, é prevenir a corrupção”. É como se dissesse que o dólar começou a subir porque o inverno chegou.

Esta obsessão pela cura não tem nada a ver com o bem-estar dos pobres ou com a manutenção dos empregos. Como dizia Antony Downs em “Uma teoria econômica para a democracia”, os políticos fazem suas escolhas econômicas para aumentar a probabilidade de se manter no poder.  Para que o isolamento acabe e a economia volte a funcionar, o próximo ministro terá que exercer a função sabendo que será um serviçal obediente e rasgar qualquer manual de ciência minimamente honesto, enveredando por um obscurantismo científico para agradar o chefe ao aumentar sua probabilidade de obter sua reeleição.

A pessoa que exercer este papel irá fazer o mesmo que Trofim Denisovic Lysenko fez na antiga União Soviética. Este senhor foi um agrônomo e biólogo soviético que inventou uma nova teoria genética que recusava a teoria até então aceita, a teoria de Mendel. Ela negava a genética por não acreditar na existência de DNA ou genes. Ele acreditava que qualquer corpo, uma vez vivo, era capaz de transmitir a hereditariedade sem depender de nenhum elemento especial, como genes ou DNA. A hereditariedade seria em decorrência da ocupação do mesmo espaço.

Este senhor teve enorme destaque no período de Stalin apenas porque atendia os desejos do governante, principalmente por conta do discurso ideológico. Os líderes soviéticos queriam um método agrícola para chamar de seu e que fosse diferente daqueles que eram empregados no ocidente capitalista.

Stalin operacionalizou a coletivização forçada da agricultura soviética. Isto causou muitos problemas para o regime. Houve um desestímulo muito grande e a quantidade produzida no campo caiu muito. Lysenko operacionalizou métodos agrícolas radicais, mas não comprovados cientificamente, prometendo grandes oportunidades produtivas aos camponeses. Isto se mostrou muito útil para Stalin. As promessas que os métodos de produção propostos por Lysenko se parecem muito com as promessas de cura da cloroquina por parte dos Bolsonaristas. Ou seja, prometiam milagres.

A consequência disto foi um aumento da fome na antiga União Soviética, pois as práticas propostas por Lysenko prolongaram e exacerbaram a escassez de alimentos. E isto não ficou confinado na União Soviética. A China maoísta também colocou em prática suas ideias e a fome em seu território foi muito maior. Esta obsessão do atual governo em arrumar uma cura a qualquer custo para justificar o fim do isolamento já está tendo consequências negativas na economia.

Por conta do Covid-19 as economias do mundo inteiro estão entrando em recessão e vendo suas moedas perderem valor. No entanto, o real é a moeda que mais perde valor no mundo. O nível de incerteza na economia brasileira supera, em muito, aquele verificado em todas as outras economias do mundo. Isto se deve pelo caráter belicoso do governo. Criasse conflito toda semana e em todos os ramos. Na política exterior, ao acusar a China, na política interna, ao afrontar cotidianamente os outros poderes da República.

O nível de incerteza é tão grande que recentemente o economista Armando Castelar Pinheiro publicou relatório aconselhando os investidores do Brasil. As palavras dele foram, “meu conselho de investimento é o de não correr para um edifício em chamas. Neste momento, é melhor deixar o Brasil para especialistas, loucos, oportunistas de longo prazo e aqueles sem outras opções”. Ou seja, a mistura de obscurantismo político com   obscurantismo científico não vai da certo.

 

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