Rômulo Polari

Professor e ex-reitor da UFPB.

Geral

Brasil: custo humano evitável da pandemia


01/05/2020

O ex-Reitor da UFPB Rômulo Soares Polari

Os totais de brasileiros infectados e mortos por coronavírus podiam ser bem menores. A pandemia demorou a chegar ao país. Era possível agir com eficácia. Já se podia escolher entre o êxito/eficiência da China e o malogro/negligência dos EUA, Itália e Espanha.

No Brasil, o primeiro caso de infecção COVID-19 foi em 26.02.20 e o de morte em 17.03.20. Em 30.03.20, já tínhamos 4.579 pessoas infectadas e 159 mortes. A China já triunfava contra essas ocorrências. Nos EUA, Itália Espanha, o fracasso era grande.

A China venceu a pandemia, com o custo de 84,3 mil infectados e 4.640 mortes. A sua população é de 1,4 bilhão de habitantes. O Brasil, com 210 milhões de habitantes, para ter resultados equivalentes, o seu total de infectados seria de 13 mil e o de mortos 700.

O insucesso do Brasil é dolorosamente evidente. Chegou ao final de abril com 85 mil pessoas infectadas e 5,9 mil mortos. Isso se deve ao descuido na fase inicial de propagação do vírus, quando o combate correto define a vitória, e corta o mal pela raiz.

Evidências mundiais indicam que o ritmo expansivo/dia dos casos de COVID-19 tende a zero. Mas a massa de pessoas infectadas é imensa e crescente. Ou se encurta o tempo dessa convergência ou o sistema de saúde entra em colapso. A China conseguiu.

O auge chinês da crise de coronavírus foi na 1ª quinzena de fevereiro. A taxa/dia de aumento do número de infectados foi de 14,6% e a de mortos 14,7%. No Brasil, esse auge foi na 2ª quinzena de março, com essas taxas sendo de 23,2% e 40,2%.

Na China, desde fins de março, são raros os novos casos de COVID-19. O Brasil, agora, no final de abril, continua longe disso. Nessa sua 3ª quinzena da pandemia, as taxas/dia de aumento dos casos de infecção e morte foram de 7,6% e 8,5%.

O governo brasileiro foi imprudente, na reação essencial à pandemia: o isolamento social. O presidente Bolsonaro, com seus shows explícitos antiquarentena seguidos por milhões de adoradores, atrapalhou as ações do Min. da Saúde. Com esse descaso, o país não consolidou, em abril, uma taxa/dia menor que 1% de novos casos de COVID-19.

Numa visão otimista, o Brasil alcançará essa situação no fim de maio, provavelmente com mais do dobro de infectados e mortos do final de abril. Chorará, assim, por cerca de 40 mil casos de infecção e 4 mil mortes evitáveis. Além do caos dos sistemas de saúde de São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Fortaleza, Manaus e Belém. Os profissionais de saúde terão que decidir sobre quem salvar ou não, por falta de capacidade hospitalar.

 

Rômulo Soares Polari

Professor e ex-Reitor da UFPB


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