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Bonito é ser de verdade, assim como Juliette


06/02/2021

A paraibana Juliette, participante do BBB 21.

Não precisa acompanhar a nova edição do Big Brother Brasil para entender que a versão 2021 vem causando mais sofrimento e dor do que distração e alegria. Isso porque as redes sociais estão tomadas de críticas ao reality show e alguns dos seus participantes por vender tormento mental como entretenimento social.

Assistimos estarrecidos e enojados a uma prática que todos nós nordestinos já sofremos – ou sofreremos – um dia: a xenofobia. Não é de hoje que comentários cujo objetivo é ofender, segregar e estereotipar a população nordestina ganha visibilidade na mídia. Entretanto, acompanhar uma conterrânea ser ridicularizada em rede nacional por seu sotaque é, no mínimo, emocionalmente desgastante.

A advogada e maquiadora campinense Juliette Freire tem sua história e trajetória galgada na superação. Desde nova precisou aprender a lidar com perdas irreparáveis. Mas isso não tirou o seu sorriso. A sua força e o seu brilho são típicos de uma paraibana arretada. Mas, infelizmente, viu seu sonho de entrar para a casa mais vigiada do Brasil virar o seu pior pesadelo.

Seu jeito brincalhão, sua fala alta e seu sotaque forte passaram a ser alvos de chacotas dentro do BBB. E isso nos dói – enquanto nordestinos – profundamente. Juliette não é ouvida, por isso muitas vezes se perde nas palavras ou precisa falar num tom mais elevado. A ela não foi dada a chance de contar a sua história. De vivenciar – talvez – o momento mais especial da sua vida. E tudo isso, simplesmente, por ser nordestina.

Estranhamente, Juliette vem sendo estereotipada, excluída, perseguida e massacrada por uma das personalidades artísticas – até então – mais desconstruídas da nova geração. A rapper curitibana Karol Conká não aceita o jeito expansivo e comunicativo da paraibana, dirigindo a ela imperativos que jamais deveriam ser proferidos. Conká passou a monopolizar todas as narrativas, deixando transparecer o seu lado arrogante e cruel. Finalmente, a camuflagem usada por Karol na cena artística brasileira se esvaiu, deixando às claras a sua militância seletiva de web.

É difícil compreender esse processo discriminatório em um país marcado por sua pluralidade humana e social. Inusitadamente, as mesmas pessoas que apontam o dedo para os nordestinos, se espremem em sites e agências de viagens para conseguir um lugar ao sol nesse paraíso chamado Nordeste. Bem recentemente, a Revista Veja publicou uma capa elegendo São Paulo como a capital do Nordeste, devido ao processo migratório que foi fundamental para o desenvolvimento da região. E mais uma vez, a lógica colonialista imperou, promovendo a exclusão da cultura e da história do povo nordestino.

O poeta cearense Bráulio Bessa disse esses dias que bastou uma semana de BBB para ficar evidente que as aparências enganam. Nesse processo de modernidade líquida, onde as relações sociais são frágeis, fugazes e maleáveis; onde a lógica do consumo entrou no lugar da lógica da moral, viabilizando a compra do afeto e da atenção, é preciso acolher e ouvir com o coração. Bonito é ser de verdade, assim como Juliette. Transparente e vulnerável, mas carregando consigo a essência do que é ser nordestino. Juliette sou eu e você, nordestino em constante expansão, que tem direito a um lugar de fala e que constrói a própria história com fé e determinação.

Anne Nunes – Formada em Comunicação Social pela UFPB, possui Especialização em Comunicação e Marketing Político e MBA em Comunicação e Marketing em Mídias Digitais.

 

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