Brasil

Aos idosos no mundo em transe


27/04/2021

Rômulo Soares Polari

Professor e ex-Reitor da UFPB

Ânimo companheiros de velhice, essa espécie de Terra Prometida negada! A longevidade é um bônus da natureza divina que não é para todos. Para chegar lá, cada um tem que ser, em seu canto, um canteiro humano das dores do mundo… Quantos pais, mães, irmãos, cônjuges, amigos, etc. e sonhos ficaram pelo caminho e tivemos que chorar…

Há um ano, a pandemia mundial Covid-19 sacia nos idosos (mais de 65 anos) sua ânsia de matança em massa. Essa tragédia continua em 2021, muitos ainda vão morrer. A grande missão do mundo pós-pandemia é conceder dignidade sociocultural à velhice.

A vida melhor que pode e deve ser ficará sempre longe de acontecer? Os velhos não vivem o que são física e intelectualmente, e sim o que a sociedade lhes permite. Por que impor essa forma de desexistência social? Afinal, no futuro, esse ostracismo malsinará os que no presente são jovens.

Na velhice, as pessoas podem ter atividades profissionais, sociais, intelectuais e outras não mercantis. Tem-se aí um manancial de integração sociocultural com contribuições relevantes ao bem-estar e à felicidade. É o caminho da luta virtuosa contra o irracional e desumano apartheid jovens e adultos x velhos na sociedade.

Primando pela racionalidade, a ciência e a tecnologia revolucionaram os sistemas de saúde: vacinas, água e esgotos tratados, equipamentos hospitalares, diagnósticos, tratamentos, prevenções e medicamentos eficazes, etc. A expectativa média de anos de vida, de 1990 a 2020, passou de 79 para 84, no Japão, e de 66 para 77 no Brasil.

Essa longevidade só tem sentido se vivida na sociedade política, econômica e culturalmente organizada. A marginalização dos idosos, em relação a esses pilares da contemporaneidade, mesmo que parcial, equivale a uma espécie de morte social muito antes do fim da existência física.

Por que negar a alguém os anos de vida plena que o avanço científico-tecnológico lhe possibilita? Essa eutanásia social é dolorosa e irreversível a pessoas física e mentalmente sãs, mas com fraco poder sociopolítico de reação.

A supervalorização dos jovens assumiu a cena. Emergiu uma consciência social que rotula e marca os velhos. Nas “distinções” “tio”, “tia”, “melhor idade”, “avô”, “avó” há pouca virtude e muito preconceito. A sociedade não sabe o que fazer com seus velhos!

As economias pouco se orientam pelas necessidades e idiossincrasias dos idosos, à exceção da produção que aumenta os anos de vida. As decisões sobre o que, como e para quem produzir não dão a devida atenção aos velhos. A estes resta se adaptar aos serviços públicos, formatos e utilidades dos bens produzidos, às casas onde moram, etc.

Não é diferente nas criações das artes, cultura, diversão e lazer. São raras as que são pensadas e planejadas para as pessoas velhas, nas áreas de teatro, cinema, televisão, música, literatura, poesia, esporte, festival, dança, moda, etc.

Essas criações são fortemente inspiradas nos modos de ser e sentir dos jovens. É aí que os criadores e protagonistas vão buscar nutrientes às inovações. Os idosos têm que, literalmente, dançar conforme o novo ritmo, ou revalidar as manifestações do seu passado, que não têm nada a ver com suas carências e subjetividades atuais.

As sociedades se desenvolvem sem uma consciência humana afetuosa inclusiva e digna dos idosos. Prevalece um tratamento frio e injusto, em flagrante contradição contemporânea básica. Os jovens e adultos que, consciente ou não, executam a exclusão social dos velhos praticam o mal que será também si, é só uma questão de tempo.

Outra contradição contemporânea básica é a irracionalidade das economias nacionais e mundial, que se expandem com processos de produção e consumo predadores da natureza e investimentos em arsenais bélicos, que não são nem geram valores de uso. É para isso que se emprega a força de trabalho das sociedades.

A regra é produzir cada vez mais e desenvolver sem limites as forças produtivas, como um fim si mesmo, com pouca atenção à velhice. Esse sistema sociocultural a todos se impõe. Os jovens se esmeram para nele se integrar e vencer profissionalmente. É para isso que os filhos recebem a melhor educação possível.

Esse modo de produção das condições de vida da sociedade é poderoso. Os seus interesses sociais, econômicos, políticos e culturais se sobrepõem aos laços de família, amizade e fraternos. Os jovens e adultos que são nossos familiares e amigos vivem objetiva e subjetivamente para fazer a reprodução ampliada continua do sistema.

Esta visão sociocultural dos idosos não é uma apologia do saudosismo. Pois é na realidade genuinamente atual que a história se faz singular com a força e o espírito inovadores da época. Buscam-se, sim, faróis morais e éticos a essa energia motriz da sociedade, para iluminar novos caminhos. Enfim, num mundo de longevidade, urge libertar os que chegam à velhice da morte sociocultural precoce.

 

 

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