Rui Leitão

Jornalista e escritor.

Política

A lógica do confronto


11/06/2021

O historiador, produtor cultural e advogado Rui Leitão

Tem gente que não sabe conviver num ambiente de paz, nem consigo mesmo, nem com os outros. Algumas pessoas gostam de viver num clima de conflito, agindo sempre na lógica do confronto. Adoram viver num campo de batalha. A hostilidade torna-se postura comum no seu comportamento. Dedicam-se a montar estratégias beligerantes, desencadeando ofensivas difamatórias e estabelecendo teorias conspiratórias. Utilizam-se de práticas caluniosas, travestidas de argumentos, no intuito de fazer prevalecer suas táticas de promover contendas.

Perseguindo o objetivo de formar grupos de apoio, produzem informações distorcidas, gerando interpretações equivocadas, que os ajudem a criar o imaginário de que estão com a razão. É a necessidade de aparentar força, poder, situação de comando nos embates. Assim se comportam líderes que, alçados à posição de autoridade, fazem uso da força e da astúcia para se manterem no poder. Maquiavel, pensador clássico da ciência política, no seu famoso livro “O Príncipe”, inspira interpretações que estimulam essa forma de atuar pelos que adoram o exercício do poder absoluto e dele tirar proveitos.

A orientação política contida na obra de Maquiavel recomenda que “o príncipe deve ser mais audacioso do que prudente”. A partir dessa observação, muitos abandonam o compromisso com a verdade e com a harmonia, entre diferentes, para ousarem na apresentação de fórmulas de gestão, que os coloquem numa situação em que, preferencialmente, sejam temidos, muito mais do que amados. Afinal de contas, esse estilo adotado para fazer política, tem sua base de apoio popular, aguerrida e fiel, e, por isso mesmo, é interessante fomentar o clima de confronto permanente visando demonstrar força e controle da situação para aqueles que os seguem.

Interessa a eles, que os espaços políticos em que atuam, estejam divididos entre aliados fiéis e inimigos desprezíveis. O padrão de conduta é atacar os fatos com “fakes”, pondo em risco a estabilidade democrática. São, geralmente, adeptos da autocracia presidencialista, enquanto não puderem assumir oficialmente a condição de ditadores. A aposta na lógica do confronto é feita com cuidadoso cálculo político, manipulando afetos e alimentando uma polarização inflamada. A radicalização contribui para que as opções políticas, fiquem restritas aos que são favoráveis e aos que se colocam na oposição. Esse é o quadro desejado por quem está no poder.

Eles têm a compreensão de que o resultado do conflito político, depende do grau de envolvimento de sua audiência. Quanto mais público se envolver no conflito, mais polarização se estabelece, ajudando a formação de um grupo que se posicionará em favor de quem está no poder, até por conta de paixões ideológicas. Daí o interesse em trabalhar a ação política, obedecendo a lógica do confronto.


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