Geral

A Finitude & A Medicina Paliativa


27/06/2017

Foto: autor desconhecido.

A morte é um acontecimento existencial!
(Café Filosófico, de 25/06/2017)

Finitude! Essa é uma palavra que minha mãe tem usado muito nos últimos tempos. Com 89 anos, e se sentindo indisposta muitos dias, o médico do alto do seu poder maior, lhe disse: “A senhora não tem nada. É a finitude!” E ela, bem contrariada com esse diagnóstico devastador, desde então, não parou mais de falar desse mantra.

Venho em contato com a morte desde a despedida do meu pai há mais de duas décadas. De lá para cá, muitas perdas de tios, primos, amigos queridos. No caso do meu pai, lidei muito mal. Tinha 39 anos e a minha crise dos 40 se deu não pelas rugas ou idade, mas pelas perdas e danos. Entrei em pânico e não admitia o sofrimento do meu pai. Foi um calvário assisti-lo tão impotente. E minha fragilidade era tanta que, anos mais tarde, quando chegou a vez de Juca, meu amado companheiro, os familiares e amigos próximos, acharam que eu não resistiria à tamanha dor. Mas a vida é um poço de surpresas inusitadas. E o ser humano uma incógnita. E eu, virava pedra, virava molusco, sem nem conhecer direito a poesia de Frances Ponge. E enfrentei tudo e mais um pouco, com uma calma toda minha. Até eu, não me reconhecia naquele estado de/ e em choque. Já sabia daquele caminho irreversível da perda, e as circunstâncias, sem saída. Foquei no agora e no amor. Mas não foi algo consciente. Foi uma sobrevivência; um mar que transbordava em dor e silêncio.

Depois dessas duas experiências devastadoras de despedidas, passei a me interessar muito pelo tema da morte. Não por morbidez. Mas por interesse filosófico, se é que podemos chamar assim. Logo depois da morte do meu pai, a Revista Veja estampou uma matéria sobre Morte Digna, e fiquei muito triste de constatar o quão longe estávamos daquele direito. E pensei de como não temos profissionais para nos propiciar aquele direito e conforto que a matéria propunha.

Com Juca, como estava no hospital Sirio Libanes – SP, pude constatar essa trajetória de conforto hospitalar, médico, psicológico, enfim, tudo que alguém merece e deveria ter no seu momento de finitude; de limite, aceitação e resignação. Claro que, isso apazigua quem está doente, e seus familiares.
E foi lá, nesse hospital de excelência que tive contato com o nome Medicina Paliativa. Depois, através da Dra. Anelise Carvalho Pulschen, com quem troquei algumas conversas interessantes.

No último domingo (25/06) no programa Café Filosófico , TV Cultura, dando prosseguimento à série: "Finitude e o desejo da infinitude"!
a palestrante foi a geriatra, Doutora em Bioética pela Universidade do Porto, Claudia Burlá. Fui tomada de ternura e curiosidade sobre essa área da medicina tão fundamental e tão distante de nós.. Medicina Paliativa x Cuidados Paliativos. Tudo explicadinho. De como enfrentarmos doenças crônicas com os devidos cuidados de proteção ao doente para minimizar dores, fadigas, e tantas fontes de sofrimento. E quando não há mais nada a fazer, aí é que temos o que fazer, disse a médica. Ou seja, alivio para o enfermo, seja com morfina, remédios, e cuidados com uma rede interdisciplinar de profissionais da área da saúde, para estar perto, cuidar, e fazer da finitude e morte, um momento quieto, calmo, íntimo e transcendente.

A Dra. Cláudia falou de mortes abruptas (acidentes, infartos, etc); doenças de câncer (diagnósticos e sobrevidas); doenças degenerativas crônicas (Alzheimer e outras demências) e de como lidar com cada uma das situações. Porque, explicava ela, quando temos um foco só na doença, algo está errado. O doente deve ser o foco. E quando temos um doente com doenças crônicas e de longa duração, como no caso do Alzheimer, toda a família adoece junto. Daí a importância de acionar aqueles profissionais que sabem lidar com a falta de comunicação do doente, a chamada caduquices, as dores, as fadigas, e outros sintomas difíceis para minimizar o sofrimentos do doente e de quem cuida.

Lembrei muito do trabalho da minha amiga Marta Pessoa e o Site Mundo Prateado, que há tempos se dedica e pensar sobre a velhice assistida. E foi a partir da assistência à distância a um ente querido e brilhante em tudo que faz desde os tempos das Lourdinas que, Marta começou a questionar tudo e todos que de alguma forma estivessem ligados à velhice e suas circunstâncias de saúde ou não.

Na semana passada, tive o privilégio de assistir o curador desse Café Filosófico, Alexandre Kalache, estreando com o episódio “Finitude e a revolução da longevidade”. Kalache falou da velhice, e de como ele, mineiro, e de uma família enorme, conviveu a vida toda com os velhos da família e, de como essa convivência tinha sido determinante para sua vida e olhar, e lhe transformado em alguém mais compadecido e atento para o tema.

Hoje , com a expectativa de vida mais longeva de nós todos, cheguei numa fase de que eu e todos os amigos, lidamos de uma forma ou de outra com a finitude dos pais, ou familiares. Os assuntos em mesa de bar não fogem ao tema: mamãe fez isso, a cuidadora fez aquilo, como lidar com esse ponto ou aquele outro. Não sabemos nada. E tudo é des-encontro e sofrimento.

Precisamos urgentemente de: pessoas que acompanhem o velho ao cinema ou ao parque; pessoas que leiam poesia para os velhos (como no filme Em Seu Lugar); pessoas acompanhantes que contem histórias, que conversem, que façam massagem, etc e tal. Leio que nos países nórdicos, alunos de Universidade ganham descontos, bolsas para dividirem casas com os velhos solitários. Eles, os jovens, ganham generosidade e compaixão e os velhos companhia e juventude. Sim, só os familiares não dão conta de tantas demandas, paciência, tempo e abnegações para com os seus velhos. Conferir o filme Juventude – um belo, ácido e impactante retrato da velhice, para nos assustarmos ainda mais com o tema.

Penso também em outro filme igualmente belo e intrigante – A Partida (Yôjirô Takita, 2008), vencedor de melhor filme estrangeiro do Oscar 2009 – onde um jovem violoncelista desempregado e assustado, arruma um emprego numa funerária, para embalsamar e preparar o morto para sua despedida. No início, assustado com o corpo inerte e seus medos da morte, se apavora. Aos poucos, vai se familiarizando naquela tarefa de rituais e expertise, e mergulhando no ofício da Cerimônia do Adeus (Simone de Beauvoir), se encanta com os momentos transcendentes que se enleva e até se torna uma pessoa melhor.

E por entre finitudes, partidas, dores, despedidas, me interesso cada vez mais por essas novas abordagens da morte como parte da vida. Claro que, eu mesma já me encontro finita em tantas coisas… Um outro lado de tudo, Irreversível. Insuportável. Mas que, podemos sim, ter direito ao nosso luto apaziguado, como mostra as pesquisas dessa área Paliativa, que, quando temos esses direitos e carinhos médicos, a dor da despedida se transforma sim, em aceitação e apaziguamento. Acho que foi isso que tive, quando de Juca, e é isso que desejo para todos.

Ana Adelaide Peixoto – 26 de junho, 2017
 

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