Entretenimento

A Casa de Deus e as muitas moradas

25/04/2020


Moradores de Rua na cidade do Recife/PE Foto: Felipe Ribeiro/JC Imagem

Para Heraldo e Janaína, moradores de rua que me ensinaram a liberdade.

Despertamos hoje com a notícia da morte do empresário e colecionador pernambucano Ricardo Brennand, fundador do Instituto Ricardo Brennand, o conhecido Castelo dos Brennand, primo do artista plástico, poeta e escritor, Francisco Brennand, morto em dezembro de 2019.

Ricardo Brennand era empresário do ramo de tecelagem, cerâmica, cimento, vidros, e outros, e investiu a partir dos anos noventa, no Instituto Ricardo Brennand, localizado em Recife, detentor da maior coleção do artista holandês Franz Post, que acompanhou a expedição holandesa ao Brasil. O Instituto cultural foi eleito o melhor museu da América do Sul pelo site de viagens TripAdvisor.

Pois bem, essa notícia nos leva a lembrar de nossa experiência em Recife, onde vivemos durante 33 anos. Dentre a memória de idas e vindas, lembro um Natal que passamos comemorando, a Convite do Governador Eduardo Campos, no Palácio das Princesas, sede do Governo de Pernambuco. Na oportunidade, convidei uma amiga para conhecer o Palácio e ela ficou encantada com tudo o que viu.

Em outra oportunidade, convidei outra amiga para passar o Natal na rua, com um casal de amigos, Heraldo e Janaína, que morava alojado numa esquina do bairro do Espinheiro. Preparei uns pratinhos de doces e salgados, comprei champanhe e refrigerante, e fomos. Lá chegando sentamos na calçada junto a eles. Janaína dormia embaixo de papelões, e Heraldo nos fazia sala, pegava a comida com a mão, e ao mesmo tempo em que mastigava discutia política social, falava de suas queixas contra o prefeito, dos livros que lia, e outras considerações. As pessoas passavam e se afastavam com receio, medo, preconceito. Enquanto sorríamos, olhávamos o céu com os fogos iluminando a noite natalina e ratazanas aproveitavam para cruzar nossas pernas, no habitat próprio delas, buscando dividir pedaços de bolos e tortas ali coletados pelo casal. Eles moravam ali mesmo, no endereço público da calçada. Era um banquete diferente.

Nesses tempos de pandemia, em que somos obrigados a ficar em casa para garantir (???) um pouco com isolamento social e preservar nossa saúde, lembro-me dos ricos que não tem como livrar-se do destino de morrer infectados, e lembro-me dos moradores expostos nas ruas, aqui simbolizados por Heraldo e Janaína (como estariam nossos amigos?), e no todo de nossas reflexões, nos perguntamos a que viemos. De onde viemos, para onde vamos?

Ainda olhando as estrelas no céu daquela noite natalina na rua, lembramos-nos de buscar nos ensinamentos de Jesus, quando diz que a Casa de Deus tem muitas moradas. E viajamos no espaço sideral, no cosmos, no infinito. Nas enormes possibilidades de viver e habitar.

Ali na humilde calçada, dividida entre um tapume de construtora, uma árvore, sala, quarto, cozinha, tudo de papelão e móveis usados descartados, latas, caixas, roupa suja, catrevagem, banheiro ecológico, valeta e céu aberto, podia repensar nossas propostas de vida. Enquanto nossas casas reservavam conforto, ali mesmo havia a paz, embora o desprezo, o abandono, a solidão, a sujeira, a miséria, Heraldo e Janaína eram felizes e, segundo ele, era o endereço da liberdade.

Nesses dias de pandemia, em que ficamos confinados ouvindo música, lendo livros, comendo e assistindo filmes, pudemos acessar um documentário sobre o milionário fundador da Microsoft, Bill Gates. Sim, ele mesmo, o empresário que resolve deixar a sua empresa e partir para projetos sociais que possam destinar parte de sua fortuna e favorecer os irmãos doentes, invisíveis à maioria, algumas comunidades carentes da África. Bill Gates começa pesquisando quais as causas de morte da maioria das crianças que ali vivem e como resposta em primeiro lugar vem a diarreia. A ausência sanitária, os despojos jogados a céu aberto, levados ao rio onde se banham e de onde retiram água para beber. Sim, ali são misturados água, bosta e consumo.

Bill Gates faz contas inteligentes e calcula que se fossem investidos milhões de dólares na construção de equipamentos sanitários, a conta das mortes no mundo teria custo bem menor. Em casos como esse de agora, de uma pandemia que assola as nações do planeta, em que trilhões de dólares são empregados na incerteza de conte-la, de se descobrir uma vacina e salvar parte da população, de indizíveis números do prejuízo das bolsas de valores do mundo; investir em sanitarismo sairia bem mais em conta.

A ameaça do coronavírus que ronda nossas casas e nossas vidas nos leva a repensar de que vale tudo isso, esses valores passageiros, o ouro, o petróleo, imóveis, luxo, riqueza, drogas, ilusão, poder. Que símbolos representam os políticos, os empresários, os moradores de rua, os ricos, os pobres. De que adianta as suas moradas, se ainda não aprendemos a ser felizes e dividir o pão, a água, se ainda não nos sentimos completamente felizes, com amor e liberdade. Essa ameaça nos leva a pensar quais seriam verdadeiramente as várias moradas da casa de Deus.

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