Paraíba

OPINIÃO: Professora da UFPB cita planejamento financeiro como melhor ‘simpatia’ para fazer o dinheiro aumentar

O artigo semanal é resultado de uma parceria entre o Portal WSCOM e o Departamento de Economia da Universidade Federal da Paraíba.

17/01/2020


Na imagem a professora Márcia Batista da Fonseca

Qual a melhor simpatia para seu dinheiro aumentar?

 

Por Márcia Batista da Fonseca, professora associada do Departamento de Economia, Universidade Federal da Paraíba

 

Fazer um círculo com arroz em uma superfície plana, vestir amarelo na passagem do ano, guardar moedas em um saleiro, guardar sementes de romã na carteira durante o ano inteiro… são tantas simpatias para fazer o dinheiro crescer… e as pessoas transmitem estas crenças por gerações. Há uma espécie de repetição nas ações humanas, que segundo David Hume, um filósofo do século XVIII e precursor da economia clássica, “as mentes de todos os homens são semelhantes em seus sentimentos e operações”.

 

Simpatia é uma palavra originária do grego sypatheia, syn, que significa “junto” e pathos, “sentimento”, e está relacionada a percepção que cada ser humano tem em relação a necessidade de mudança em outrem, no que diz respeito a um sofrimento que possa ser minimizado. Partindo desta premissa, é possível compreender o resultado de uma pesquisa recente realizada pelo Serviço Nacional do Crédito (SPC) entre os dias 07 e 12 de outubro de 2019 em que foram ouvidos 686 consumidores nas 27 capitais brasileiras via internet, 32% dos brasileiros acreditam em simpatias, destes, 16% fazem simpatias no ano novo para ganhar dinheiro, 6% para pagarem suas dívidas, 5% para conseguir um emprego e 3% para comprar um caro.

 

Para os economistas o planejamento financeiro é a melhor simpatia para fazer o dinheiro crescer. Por que em pleno século XXI as pessoas acreditam que uma simpatia poderá melhorar sua condição de vida? Por que é tão difícil se planejar financeiramente no Brasil? É possível fazer o dinheiro crescer se a economia não está crescendo a contento? A economia brasileira na última década tem se arrastado em uma situação de baixo crescimento. Vive-se um momento complexo. O Produto Interno Bruto (PIB), a produção de bens e serviços da economia, cresceu apenas 1% em 2019, graças primordialmente, ao setor agropecuário. Nada diferente dos últimos nove anos. A média de crescimento do PIB entre 2010-2019 foi de 1,3%. Esse desempenho afeta os ânimos do mercado, as previsões de investimentos e mesmo o otimismo da população e consequentemente dificulta qualquer tipo de planejamento financeiro dos agentes.

 

O crescimento do PIB depende, basicamente, de quatro fatores: consumo, investimento, gastos públicos e balança comercial. Apesar da inflação estar se comportando bem próximo a meta do Conselho Monetário Nacional, em torno de 4,31% ao ano, o consumo depende primordialmente da renda e da taxa de juros. E quando se fala em renda, é preciso falar de desigualdade. Temos uma economia desigual, com um quarto da população vivendo com 420 reais por mês, 11 milhões de pessoas trabalhando na informalidade e 12 milhões de desempregados, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Além disso, 65% das famílias no Brasil encontram-se endividadas segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC), a junção destes fatores restringe o crescimento da economia.

 

Por outro lado, a taxa de juros referencial, encontra-se em 4,5% ao ano, o que representa estímulo para os investimentos privados e redução dos ganhos com os títulos da dívida pública. Sim, esta é boa notícia em 2019: a redução dos gastos públicos. Após uma década de expansão, em 2019 o déficit público caiu de uma previsão de 132 bilhões de reais, no início do ano, para 70 bilhões em fins de 2019. Essa queda é resultado da aprovação da reforma da previdência, da redução do estoque de reservas em moeda estrangeira e de seu custo de manutenção, de leilões e concessões e passa a visão de economia saneada afetando positivamente a expectativa dos investidores e no médio e longo prazo.

 

A má noticia é que com uma sociedade tão desigual é preciso encontrar um tamanho ótimo para o estado e gastos sociais tem que ser realizados para evitar caos e instabilidade. Cortar gastos em educação, saúde e infraestrutura afetam a capacidade de crescimento da economia. A redução dos gastos com educação afeta no médio e longo prazo a produtividade do fator trabalho, um dos gargalos para o crescimento da economia brasileira. Assim como, menores em gastos com infraestrutura reduzem as possibilidades de expansão e distribuição da produção.

 

Tivemos avanços em 2019? Sim, por exemplo, a criação de cem mil novos postos de emprego formais na economia. Entretanto, tivemos retrocessos, por exemplo, no setor externo, que mesmo com câmbio favorável às exportações, o saldo comercial foi 20% menor que em 2018. Os produtos básicos responderam por 52% da nossa balança comercial, e assumimos novamente nossa característica secular de primário-exportadores, pois foi o setor agropecuário o maior responsável pelo crescimento de 1% do PIB em 2019. Lembrando que a produção industrial recuou em fim de 2019 0,7%, mesmo com elevado mercado interno para a indústria automobilística.

 

Estaremos entrando em 2020 em novo um ciclo de expansão? A economia voltará a crescer a taxas convincentes? Fazer uma simpatia pode ajudar a vida financeira do brasileiro? Será que o brasileiro mediano, cidadão mais afetado pela crise, conseguirá emprego, pagará suas dívidas e comprará um carro? Estas ainda são perguntas difíceis de responder, mas estão interligadas. Há muito para se fazer em termos de reformas, porém o caminho do crescimento precisa ser guiado pela da redução das desigualdades no Brasil. Do mesmo David Hume, fica a observação que “em nossos raciocínios a respeito dos fatos, existem todos os graus imagináveis de certeza. Um homem sábio, portanto, ajusta sua crença à evidência”.

 

*O artigo semanal é resultado de uma parceria entre o Portal WSCOM e o Departamento de Economia da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Márcia Batista da Fonseca é professora associada do Departamento de Economia na Universidade Federal da Paraíba.


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