O Parlamento entre o Decoro e o Espetáculo – Rui Leitão

​É muito triste assistir a alguns debates no Parlamento brasileiro, tanto nas reuniões de plenário quanto nas comissões das duas Casas Legislativas. Dá saudade dos debates que acompanhávamos em épocas passadas, quando adversários políticos se enfrentavam na tribuna na defesa de ideias divergentes, mas fundamentadas no respeito ao contraditório. As divergências eram intensas, mas não descambavam para ofensas pessoais, palavrões ou agressões.

​O que vemos hoje, em alguns casos, é bem diferente. Há parlamentares, com frequência identificados com setores da extrema-direita, que ocupam os microfones utilizando linguagem chula para atacar e ameaçar autoridades, proferir palavrões e transformar o plenário em palco para discussões que pouco ou nada interessam à sociedade. A preocupação central parece ser a produção de vídeos para provocar reações e conquistar visibilidade nas redes sociais, numa evidente banalização do decoro parlamentar.

​Enquanto isso, pouco se observa, por parte desses congressistas, a apresentação de projetos capazes de enfrentar os problemas concretos do país e melhorar a vida da população e da classe trabalhadora. Muitos parecem atuar prioritariamente em defesa de grupos específicos, como empresários, setores do agronegócio e forças militares, deixando em segundo plano as demandas mais amplas da sociedade. ​Seus discursos, em determinadas situações, revelam pouca consistência argumentativa, sendo substituídos por agressões verbais e até confrontos físicos, em flagrante desrespeito às regras que deveriam orientar o funcionamento do Congresso Nacional. A tribuna, que deveria ser espaço privilegiado para o confronto democrático de ideias, acaba transformada em cenário de espetáculo político.

​Esses comportamentos revelam parlamentares preocupados mais com a própria projeção e com os interesses dos grupos aos quais estão ligados do que com a responsabilidade inerente aos mandatos que receberam. Desconhecem, ou parecem desconhecer, que a democracia exige saber conviver com a divergência. Revelam-se, em alguns casos, histriônicos, pobres em argumentação e alinhados ao que há de mais preocupante no exercício da política.

​Neste ano, a sociedade brasileira terá a oportunidade de contribuir para recuperar o nível do nosso Parlamento. Isso não significa defender uma determinada posição ideológica. Nossa história demonstra que as divergências políticas sempre existiram e que, em diferentes períodos, adversários de posições radicalmente distintas protagonizaram grandes confrontos de ideias na tribuna. A diferença é que havia maior preocupação com a qualidade dos argumentos e com o respeito ao adversário.

​A tribuna parlamentar deveria voltar a ser um espaço onde se ouvissem discursos capazes de demonstrar preparo intelectual, conhecimento dos problemas nacionais e compromisso com as causas que efetivamente dizem respeito às demandas da sociedade. O Parlamento não pode ser reduzido a um palco para performances destinadas às redes sociais.

​A polarização extremada que tomou conta do país nos últimos anos contribuiu para o surgimento de um tipo de agente político que parece compreender o mandato muito mais como instrumento de exposição pessoal do que como responsabilidade pública. Cabe à sociedade, entretanto, exercer seu papel democrático com consciência, examinando cuidadosamente as propostas, a atuação e o comportamento daqueles que pretendem representá-la.

​O Parlamento não pode continuar sendo transformado em palco para políticos descomprometidos com as exigências do cargo para o qual foram eleitos. Ainda há tempo de preservar e fortalecer nossa democracia, escolhendo representantes capazes de compreender que o mandato parlamentar não é propriedade pessoal: é uma delegação da sociedade.

​É importante, contudo, fazer uma ressalva. Essa crítica não atinge a maioria dos parlamentares que exercem seus mandatos com seriedade, independentemente de suas posições ideológicas. Existem muitos deputados e senadores que honram a função pública, participam dos debates, apresentam propostas e respeitam as regras do jogo democrático. ​Mas é inegável que existem maçãs podres na política. E cabe ao eleitor identificá-las.

​Mais do que escolher entre esquerda e direita, situação ou oposição, é preciso avaliar quem compreende a dimensão da responsabilidade de representar milhões de brasileiros. O país precisa de um Parlamento que seja espaço de debate, fiscalização, formulação de leis e defesa do interesse público, um Parlamento que nos orgulhe, e não que nos envergonhe.

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