Novembro/1968: A ameaça de prisão de Dom Fragoso

 

O militarismo que comandava o país na ditadura que se implantou a partir do golpe de 1964 vivia uma paranóia. Qualquer pessoa que liderasse um movimento de apoio e solidariedade às lutas e movimentos populares era apontado com subversivo ou comunista. Os clérigos da Igrega Católica que assumiram a defesa dos pobres e dos oprimidos passaram a ser estigmatizados pelo regime como “comunistas”.

A professora Marylu Alves de Oliveira, da Universidade Federal do Piauí, em trabalho de pesquisa publicado na Revista de História e Estudos Culturais, daquele Estado, transcreve um registro encontrado nos arquivos do IV Exército, 10a. Região MIlitar, que relatava as atividades de Dom Fragoso, o que demonstra bem esse delírio acusador dos ditadores:
“O BISPO VERMELHO DE CRATEÚS, Dom Fragoso, rezando na cartilha comunista, e em comunhão com o diabo e com o arcebispo de São Paulo, o arcebispo de Olinda e Recife, o arcebispo de Goiânia, o bispo de Goiás, o bispo de São Félix, e muitos outros de menor expressão na CNBB, que é organização de frente do Partido Comunista da União Soviética, vem promovendo agitações, instigando pressões, ressaltando seculares antagonismos sociais, com a finalidade de subverter a ordem pública”.

Dom Fragoso era um paraibano de Teixeira, que à época ocupava o bispado de Crateús no sertão cearense. Filho de agricultores, Dom Fragoso ficou conhecido por sua luta em favor dos camponeses e dos menos assistidos.

Um jornal carioca  noticiou que agentes do DOPS seguiram para o Nordeste, com o propósito de prender o bispo de Crateús, Dom Fragoso, e traze-lo ao Rio de Janeiro onde seria ouvido pelo Secretário de Segurança, sob alegações de o sacerdote teria ligações com o Partido Comunista e com o senhor Marighela.

Ao tomar conhecimento da informação, Dom Fragoso participava de uma reunião de bispos nordestinos em Recife. Dom Hélder reagiu afirmando que se viessem prende-lo, teriam que levar juntos todos os 39 bispos que participavam da reunião. Seria uma atitude que repercutiria no mundo inteiro, e , por conta disso, a prisão anunciada não chegou a ser efetivada.

O Conselho de Opinião Pública da Arquidiocese do Ceará emitiu nota advertindo que “qualquer ato contra Dom Antônio Fragoso, originará uma séria crise politico-religiosa, sem precedentes no Brasil”.

O bispo ameaçado de prisão revelou à imprensa nacional que “nunca tinha visto Marighela e nunca teve com ele qualquer contato pessoal ou por escrito, classificando de ridiculas as acusações que lhe faziam sobre a terrível onda de terrorismo que atingia o Brasil, reafirmando que continuaria tranquilamente a sua missão de pastor, “em defesa dos oprimidos de minha Diocese, porque o meu mundo é Crateús, ao lado dos meus irmãos camponeses, realizando o trabalho de sindicalização de acordo com a lesgislação trabalhista. Se isto for subversão, quem é subversivo é o governo e não eu”.

O jornal O Norte, em editorial,  ressaltava a importância do trabalho social que o nosso conterrâneo desenvolvia em Crateús, no exercicio do bispado daquela cidade cearense.
“Dom Antônio Fragoso é reconhecidamente um homem de ação apostolar e de não menos reconhecida coragem cívica. Muito tempo antes do Concílio Vaticano II, já desenvolvia em João Pessoa, um trabalho de adaptação da Juventude Operária Católica às exigências espirituais e sociais da época, ampliando ainda mais esse trabalho depois de elevado à condição de Bispo Auxiliar do Maranhão, quando então deixou a Paraíba.
Foi Reitor da Universidade Católica de São Luiz, de onde afastou-se em 1964, partindo para Crateús, como chefe da Diocese que ainda dirige e onde significativamente todos os diocesanos o apoiam neste momento.
A Diocese de Crateús ampliou, no entanto, as suas fronteiras nos últimos dias, e o Brasil católico, de repente, parace haver se incorporado a ela, ao lado do seu bispo, um dos mais jovens e mais lúcidos prelados do Continente. Lamentavelmente, porém, não passa de um marginal para setores do governo”.

* esse texto faz parte da série COMO A PARAIBA VIVEU O ANO DE 1968
* comentários e informações adicionais devem ser encaminhados para o email: iurleitao@hotmail.com

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