Juan Vilar: Longe de quaisquer tecnologias do que chamamos hoje de ‘cinema’, havia uma tradição oral que atravessava gerações. Se toda tradução é uma reescrita, que será de uma tradução para a imagem e som em movimento? Nos filmes de Nolan, há uma incessante necessidade textual, sempre repletos de explicações e reforços. Ora, não são a imagem e o som suficientes para atravessar uma narrativa? Em quase 3 horas de filme, os momentos mais fortes de Odisseia foram exatamente os mais distantes de uma explicação didática e textual.
José Lacerda: Adaptar A Odisseia ao cinema nunca significaria simplesmente ilustrar acontecimentos conhecidos, mas encontrar uma linguagem capaz de preservar sua grandiosidade sem transformar o mito em uma peça de museu. Nolan compreende esse desafio e, ao condensar uma epopeia de quase vinte e quatro cantos em 2h52, encontra uma solução narrativa elegante ao abandonar a linearidade tradicional. A alternância entre Ítaca, Tróia e a travessia não apenas organiza a história para o público contemporâneo, mas presta uma discreta homenagem à própria construção do poema homérico. Ele procura traduzir essa estrutura para uma linguagem cinematográfica moderna.
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Juan Vilar: O início do filme, na necessidade de apresentar o mundo ficcional e suas personagens, é o ponto mais baixo do épico. Não chegou a ser cansativo, mas desinteressante. Os planos que verdadeiramente me interessaram nos primeiros 40 minutos foram os que não me diziam nada: o vaivém manso do mar, o céu, o fogo, quando as personagens não eram engolidas por algum texto ou por uma montagem frenética. Sob uma análise mais ontológica, pouco me interessaram certas decisões da direção na submissão das imagens ao texto explicativo, e da submissão da montagem a esses mesmos parâmetros.
José Lacerda: É justamente aí que nasce o maior debate da obra. Durante a sessão, a pergunta que permanece é se aquilo ainda é uma adaptação de Homero ou uma releitura profundamente moldada pelas obsessões de Christopher Nolan. O diretor assume anacronismos visuais que revelam que ele pouco se interessa pela reconstrução histórica daquele mundo. Ver guerreiros gregos utilizando calças ou armaduras de ferro revela que seu objetivo é utilizar Homero como matéria-prima para construir uma narrativa essencialmente nolaniana.
Juan Vilar: Quando atravessamos o mar de Ítaca à Hades, porém, a expressão sensorial do terror vivido na guerra se centraliza. O que importou em uma adaptação audiovisual entrou em jogo: a imagem e o som agindo em conjunto para causar algum tipo de impressão. A catarse, enfim, longe de apenas Calíope, de textos postos em voz e dinheiro de distribuidoras em jogo. A essência da mitologia posta em uma nova linguagem; Mnemosine por um momento retorna ao mundo através de um projetor e de alto-falantes. De resto, só Robert Pattinson deixa uma marca interessante com a petulância de seu personagem, em mais uma narrativa que subutiliza suas personagens femininas.
José Lacerda: Por outro lado, meu maior receio acabou se tornando uma das maiores virtudes. O cinema de Nolan é constantemente relacionado a um cinema racional, e era inevitável imaginar que ele reduziria A Odisseia a uma aventura excessivamente realista, esvaziando sua dimensão mitológica. Felizmente, pela primeira vez em sua carreira, Nolan abraça plenamente o fantástico com a premissa de “uma época de magia aparente”. Não há qualquer tentativa de explicar a magia; ela simplesmente existe. No episódio de Polifemo, a tensão nasce menos dos diálogos e muito mais da construção espacial, da fotografia, da montagem e do desenho de som de Ludwig Göransson, que transforma a própria caverna em um organismo vivo.

Anne Hathaway e Tom Holland como Penélope e Telêmaco: o drama da espera (Melinda Sue Gordon/Universal Pictures)
Juan Vilar: Questiono-me, enfim: para quem Nolan rogou no panteão grego ao dirigir Odisseia? Calíope, na personalização do texto épico, ou Mnemosine, na personalização da memória que hoje atribuo ao cinema? A genialidade do texto que conta uma história oral e atravessa milênios ou a inventividade artística moderna de construir um mundo com imagens e sons? Parece que suas preces não alcançaram nenhuma das duas.
José Lacerda: Filmado em IMAX 70 mm, o filme apresenta uma fotografia monumental, mas há um paradoxo: quanto maior a imagem, menos tempo Nolan parece disposto a permanecer nela. A montagem acelera e os diálogos raramente encontram espaço para respirar. Qual o sentido de buscar o formato mais sofisticado disponível hoje se não há tempo para que seus personagens habitem plenamente aquele espaço? Ao final da sessão, fica menos a sensação de ter assistido à tradução cinematográfica de Homero e mais ao encontro entre duas vozes separadas por quase três mil anos. Uma canta a epopeia do retorno; a outra a reimagina através das inquietações de um cineasta contemporâneo.
