Nos últimos anos, o mercado de capitais brasileiro tem tido um crescimento marcante nas emissões de títulos de crédito privado, como debêntures, CRIs e CRAs, como alternativa à dependência de empréstimos bancários. Esse movimento é impulsionado por diferentes fatores, entre eles o custo elevado do crédito bancário e a mudança no papel do BNDES a partir de 2017, que passou a reduzir empréstimos subsidiados e privilegia projetos de infraestrutura, sustentabilidade e inovação.
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De acordo com dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), em 2024 o mercado de crédito privado captou cerca de R$ 633,6 bilhões, com destaque para as debêntures, que somaram R$ 381,4 bilhões. Em 2025, a tendência continua forte: no primeiro quadrimestre, as emissões de debêntures alcançaram R$ 126,4 bilhões, um recorde histórico para o período.
O cenário macroeconômico, com juros elevados, favorece a preferência por renda fixa entre investidores de varejo. No final de 2024, os investimentos de pessoas físicas no Brasil alcançaram R$ 7,3 trilhões, um crescimento de 12,6% sobre 2023. Deste total, cerca de 59,2% estavam aplicados em renda fixa, segundo a Anbima.
Para 2025, os dados continuam a mostrar esse predomínio da renda fixa. Até junho, o volume aplicado por pessoas físicas chegou a R$ 7,9 trilhões, com a renda fixa mantendo-se entre os investimentos mais procurados.
Entre os produtos preferidos, ganharam destaque os títulos com benefício fiscal: CRIs, CRAs, debêntures incentivadas, LCIs e LCAs. Só no primeiro semestre de 2025, os títulos isentos registraram crescimento conjunto de 12,2%, atingindo cerca de R$ 1,39 trilhão investidos nesse tipo de ativo.
Dentro do universo de crédito privado, as debêntures, especialmente as incentivadas, têm liderado as captações. Essas debêntures destinam-se a financiar projetos de longo prazo, muitas vezes ligados a infraestrutura, saneamento, energia, logística ou outras áreas de investimento intensivo de capital.
Segundo levantamento da Anbima, as debêntures incentivadas tiveram aumento de 39,3% no volume de emissões nos primeiros cinco meses de 2025 em relação ao mesmo período de 2024.
Outros instrumentos do crédito privado, como os certificados de recebíveis imobiliários (CRIs) e do agronegócio (CRAs), também têm atraído investidores, especialmente pessoas físicas, pela combinação de isenção de Imposto de Renda e retorno acima da renda fixa tradicional.
Riscos e desafios
Apesar de oferecidos como renda fixa, os títulos de crédito privado carregam riscos relevantes. Ao contrário dos títulos públicos que são garantidos pelo governo, a segurança dos papéis depende da saúde financeira da empresa emissora ou da qualidade dos ativos que lastreiam a dívida. Dessa forma, há risco de calote ou de não pagamento de juros/principal se a empresa enfrentar dificuldades.
Além disso, muitos desses títulos não contam com a proteção do FGC (Fundo Garantidor de Crédito), que garante até R$ 250 mil por investidor em caso de falência de um banco, o que exige atenção especial por parte do investidor.
Outro ponto de atenção é a liquidez: nem sempre esses papéis têm negociação frequente no mercado secundário, o que pode dificultar a venda antecipada ou levar à necessidade de manter o título até o vencimento com risco de os preços flutuarem em função de mudanças na taxa de juros ou no risco-país.
Por fim, a recente elevação na procura por crédito privado vem pressionando os spreads, ou seja, os prêmios pagos pelo risco, para níveis historicamente baixos. Isso significa que, embora o retorno bruto possa parecer atraente, o benefício real em relação ao risco assumido diminui.

