BRASIL 247 – As investigações conduzidas pela Polícia Federal sobre o Banco Master avançaram e chegaram a elementos que indicam a possível existência de vínculos entre o esquema sob apuração e políticos com foro por prerrogativa de função. Diante disso, eventuais desdobramentos envolvendo essas autoridades deverão tramitar no Supremo Tribunal Federal, enquanto parte do inquérito pode seguir na primeira instância, informa a Folha de São Paulo.
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Segundo investigadores, provas reunidas na primeira fase da operação Compliance Zero, que teve como alvo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, incluem referências a lideranças partidárias e autoridades de alto escalão. De acordo com esses relatos, houve “vários achados” com menções a figuras do meio político, identificados após a quebra de sigilos, apreensão de documentos e acesso ao telefone celular de Vorcaro durante sua prisão.
Na avaliação da Polícia Federal, essas referências não estariam diretamente ligadas ao núcleo central do inquérito que apura a fabricação de carteiras fraudulentas de crédito consignado pelo Banco Master e a tentativa de venda da instituição ao BRB (Banco de Brasília). Esse conjunto de fraudes fundamentou a decisão da Justiça Federal do Distrito Federal que autorizou a deflagração da primeira fase da operação, em 18 de novembro do ano passado, data em que o Master também foi liquidado.
Daniel Vorcaro tornou-se uma figura conhecida em Brasília por articular uma extensa rede de relações políticas e promover encontros frequentes em uma mansão na capital federal. Desde que o ex-banqueiro passou a ser investigado, essas conexões têm provocado desconforto entre autoridades e gerado receio em setores da classe política quanto à exposição de vínculos pessoais e financeiros mantidos com ele.
Investigadores avaliam que o alcance dessas relações é amplo e, nos bastidores, chegou a ser comparado ao potencial de impacto da operação Lava Jato, que atingiu diversos partidos e desencadeou tentativas de conter o avanço das apurações. Agora, a PF pretende aprofundar a análise dos indícios para verificar se houve participação direta de autoridades no esquema atribuído a Vorcaro.
Esses novos elementos se somam às informações coletadas na segunda fase da Compliance Zero, deflagrada em janeiro, que investigou o uso de fundos de investimento administrados pela gestora Reag para o desvio de recursos captados pelo Master por meio da venda de CDBs (Certificados de Depósito Bancário). Essa etapa da operação já ocorreu sob a supervisão do Supremo Tribunal Federal, por determinação do ministro Dias Toffoli, após a defesa de Vorcaro alegar a existência de referência ao deputado João Bacelar (PL-BA), que possui foro especial.
Embora o nome de Bacelar tenha sido citado, investigadores ressaltam que ele não é o foco das apurações neste momento. O material reunido menciona outros políticos, incluindo parlamentares do Congresso Nacional, cujas situações ainda estão sob análise.
Em depoimento prestado à Polícia Federal no fim de dezembro, Daniel Vorcaro buscou minimizar o peso de suas relações com autoridades. “Se eu tenho tantas relações políticas, como estão dizendo, e se eu tivesse pedido a ajuda desses políticos, eu não estaria com a operação do BRB negada, eu não estaria aqui de tornozeleira, eu não teria sido preso e estava com a minha família sofrendo o que a gente está sofrendo”, afirmou.
De acordo com investigadores, existe a possibilidade de desmembramento do caso. Mesmo que o inquérito sobre o negócio entre o BRB e o Master seja remetido à Justiça de primeiro grau, as apurações que envolvem políticos com foro especial permaneceriam sob a supervisão do Supremo Tribunal Federal.
Nas últimas semanas, ministros do STF iniciaram discussões internas para transferir parte do processo à primeira instância, numa tentativa de reduzir a pressão sobre a Corte. O movimento ganhou força após a divulgação de informações sobre conexões de integrantes do tribunal com negócios ligados ao Banco Master, sendo visto por interlocutores como uma saída institucional para o ministro Dias Toffoli, relator do caso, que tem sido alvo de questionamentos pelo elevado grau de sigilo mantido sobre o inquérito.
O debate se intensificou depois de vir a público a relação comercial de dois irmãos de Toffoli com um fundo controlado pelo cunhado de Vorcaro, no resort Tayayá, no Paraná. Diante do desgaste e da pressão da opinião pública, o presidente do Supremo, ministro Edson Fachin, chegou a declarar ao portal G1 que havia “uma tendência, pelo que se verifica até agora”, de que o caso deixasse o tribunal.
A identificação de indícios envolvendo políticos, no entanto, deve levar a uma reconfiguração da estratégia. A perspectiva atual é que uma parte das investigações siga para a instância inferior, enquanto outra permaneça no STF, abrindo uma nova frente de apuração relacionada às autoridades citadas.
A investigação que pode ser enviada ao primeiro grau, focada na fabricação de carteiras fraudulentas pelo Banco Master, encontra-se em estágio avançado e, segundo agentes envolvidos, deve ser concluída em breve. A Polícia Federal prepara um relatório final no qual pretende detalhar os indícios de crimes atribuídos aos principais suspeitos.
Entre pessoas próximas ao caso, persiste a preocupação de que as investigações envolvendo políticos não avancem no Supremo Tribunal Federal em razão de pressões sobre a Corte, o que mantém o tema no centro do debate institucional e público.