Gil Sabino

Jornalista e assessor de imprensa.

Geral

SERTANEJOS X FORROZEIROS


14/06/2017

Foto: autor desconhecido.

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             Tivemos a grata satisfação de ter trabalhado ao lado de grandes nomes da música brasileira, inclusive, artistas nordestinos. Entre estes, em especial os forrozeiros Dominguinhos, Assisão, Novinho da Paraiba, Flávio José, Nando Cordel, Jorge de Altinho, e Luiz Gonzaga o Rei do Baião, e seu filho Gonzaguinha, com quem mantivemos amizade. Recentemente também o ilustre Santanna – O Cantador.


Com eles aprendi muito. Viajamos, participamos de eventos, produções, shows, entrevistas para jornais, rádio, televisão, tardes de autógrafos, etc. Lembro que Dominguinhos dizia ter um sonho de um dia ver o forró invadir o Brasil e tocar nas rádios de Rio e São Paulo. Tempos depois vi a Tv Globo colocar Elba Ramalho no ar, e ensaiar alguns forrós nas telenovelas do horário nobre.


A nossa festa junina ganhou forma profissional, com eventos cada vez mais concorridos, maior e melhores São Joãos do mundo. Vieram as bandas de Fortaleza com o chamado forró de plástico, uma batida repetida e abusiva e letras sem muito pudor, sem preocupação com a narrativa nordestina, com a região, com a poesia, a crônica, nada disso. Porém o rádio e o povo aderiram ao som da nova geração. Ainda assim, o tradicional forró pé-de-serra perseverou tendo seu espaço garantido e as festas sempre mantiveram elencos de bom gosto prestigiando nossos grandes nomes como Elba, Alceu, Zé Ramalho, Genival Lacerda, Flávio José e muito outros, além dos menos conhecidos.


Os forrozeiros mais antigos, diferente de Luiz Gonzaga, sempre se sentiram ameaçados pela invasão de novo contexto, nova roupagem, desde a maneira de tocar até vestir, apresentar, etc. Mesmo o palco dos grandes shows mudou, adaptando-se aos modernos incrementos da tecnologia com painéis de LEDs, equipamentos de som e luz e vídeo, efeitos especiais, grupos de bailarinos e coreografia e cenários, etc. A TV Globo passou a produzir e apresentar especiais patrocinados de São João, as grandes marcas como Skol, Montilla, Lacta, Nestlé, e outras passaram a lançar produtos comemorativos aos festejos juninos. As estruturas montadas com grandes arenas e barracas de comidas e bebidas deram novo visual ao forró.


Vieram as grandes atrações nacionais juntando-se ao elenco regional. Daí em diante, iniciam as queixas, as divisões, e muitas brigas estéreis. Porque na hora de decidir, são os gestores que assinam os contratos batendo o martelo a dizer quem canta ou não na programação de São João de suas cidades.
Este ano, para maior desgaste, uma onda maior de sertanejos oriundos do sudeste e até padres cantores veio com maior força para a grade de programação. E as gestões alegam que o povo pediu, que o povo é quem decide. Bastasse um olhar mais sensato para ver a beleza que durante anos se repetiu em Campina Grande, Caruaru, Recife e outras pequenas cidades, abastecendo a programação com nomes regionais sem deixar nada a dever diante dos grandes eventos do país. O nosso São João sempre se garantiu com nosso elenco e trouxe movimentação econômica e turística inigualáveis.


Esse tamanho texto apenas para dizer que nada adianta o bate-boca de Alcymar Monteiro que, diga-se de passagem, antes de ser forrozeiro gravou LP com canções bregas arriscando o sucesso, e demais artistas envolvidos. Essa briga deve ser bancada com profissionalismo na hora de fechar contratos com prefeituras, na hora de investir forte em promoção nas rádios, televisão, etc. Desqualificar companheiros de profissão, delimitar territórios, apelar para pornografias, essas e outras práticas talvez não resolvam, talvez não sejam adequadas. Vejam no exemplo elegante e destemido de Elba Ramalho de se posicionar e falar. Se quisermos valorizar e proteger nossa cultura que seja fortalecendo as relações, mostrando do que somos capazes de fazer e realizar com garra como sempre fez Luiz Gonzaga, apenas com uma sanfona…
Seria interessante agregar valores culturais dialogando com escolas, veículos de comunicação, representantes dos governos e outras instituições, garantindo o conhecimento profundo e estimulando a produção a partir das escolas, universidades, escolas de música, e muito mais. Fico torcendo que, novamente como dizia Dominguinhos, um dia o forró possa invadir o país. VIVA SÃO JOÃO!


Post Script – GOZAGUINHA E GONZAGÃO – A VIDA DO VIAJANTE – Lembro de um tempo que participamos com Gonzagão e Gonzaguinha da turnê A Vida do Viajante. Sorrimos muito, tomamos umas, aprendemos, estamos aprendendo…Gonzaga- O Rei do Baião me chamava de `manga rosa´ e isso quase virou apelido. De Gonzaguinha, além da amizade, ganhei em 83 uma carta que tempos depois foi musicada virando o sucesso Guerreiro Menino. Em 85, quando de passagem pela programação da rádio Arapuan FM, abrimos espaço para tocar o forró de Gonzagão com participação de Elba Ramalho – Sanfoninha Choradeira, Gal Costa – Forró de Cabo a Rabo, e Dominguinhos com Chico Buarque – Isso aqui tá bom demais! Foi um tempo lindo e bom sem medo de ser feliz. Valeu, mais uma vez VIVA SÃO JOÃO!

Gil Sabino é jornalista e gestor de marketing – [email protected]
 


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