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Flávio Migliaccio morreu de Brasil

04/05/2020


O bumbum da musa (toda mulher na linguagem moderna de hoje é chamada de musa), Gracyanne Barbosa, uma dançarina e fitness, chama atenção em click e manchete num desses portais de notícias da internet. Ao lado, o anúncio de morte por suicídio, do ator Flávio Migliaccio, de 85 anos. Ele teria deixado uma carta aos familiares, na qual detalhes apresentam narrativa negativa da sua experiência de vida, embora sua passagem por aqui tenha sido marcada por grande sucesso no teatro, cinema e, principalmente, televisão, onde desempenhou diversos papéis em telenovelas que o projetaram e o tornaram conhecido e famoso.

O país passa, coincidentemente, inserido na crise de pandemia do corona vírus-19, ao mesmo tempo também por crise interna no âmbito político a partir de controverso comportamento do presidente da república, este, inflamando a sociedade através de posicionamentos nocivos, irresponsáveis, na contramão da democracia, inclusive, influenciando a massa a sair às ruas quando a OMS (Organização Mundial de Saúde), recomenda ficar em casa para proteger-se do contágio infeccioso e mortal.

Na carta, Migliaccio revela que sua vida teria a sensação de que os 85 anos foram como um nada, uma vida inteira perdida.  Suas palavras demonstram tamanho desespero e tristeza por um país que passou 20 anos sob o regime de ditadura e não oferta, pelo menos neste momento, esperança em mudança para melhor.

Muita gente, mesmo os seres ditos mais inteligentes, não se encontra preparada para encarar determinadas situações. Sejam problemas de relacionamentos familiares, de trabalho, ou simplesmente sociais. A pressão social requer análise, pois incide diretamente na vida de cada ser humano. O homem/mulher são criados seres sociais, a partir mesmo da própria gestação, em que precisam do corpo da mãe como abrigo durante nove meses até vir à luz.

Na vida terrena do nosso planeta surgem os ciclos de aprendizado, as descobertas, a orientação básica, a educação doméstica e escolar, formação, especializações profissionais, relacionamento, atuação no campo religioso, político, esportivo, científico, e diversos outros, como que um grande curso para no final do aprendizado ser conferido diploma de aprovação. Mas, a vida tem muito mais a oferecer. A experiência, cada vez mais rica e avançada, a caminho da evolução, requer cada vez mais ferramentas para instrumentalizar metas e objetivos em busca da felicidade. Sim, é a felicidade que todos procuram…

Uma sociedade de apenas 520 anos, como a brasileira, que passa por períodos de oscilação, que vão da colonização a escravidão, as ditaduras e regime militar, todos os processos contemporâneos de mudanças, da agricultura à indústria, a tecnologia, enfim, cenários políticos de dependência, independência e desenvolvimento, todos estes certamente registram ciclos de pressão que afetam diretamente a comunidade, o cidadão.

Falamos de vida após a morte, e esta é já uma confirmação científica, inclusive, também abalizada pela Igreja Católica de Roma, e aprovada pelo Vaticano. Porém, não estamos preparados para o impacto da morte. Muito menos para a ação suicida, esta, muito mais delicada e complexa de ser compreendida.

O que leva o sujeito à depressão é descrito através de diversos sintomas como a baixa estima, a falta de motivação, solidão, humor, tristeza, decepções, ansiedade, sensação de vazio, perdas afetivas, falta de esperança, pessimismo, irritabilidade, estresse, entre outros. Sentimentos de culpa e inutilidade, desamparo, falta de atividade, ociosidade, sedentarismo, perda de interesse pela vida, falta de prazer, diminuição de energias e do sistema imunológico, inquietude, dificuldade de concentração, dificuldade para dormir, e pensamentos de morte com tentativas de suicídio. Ou seja, uma série de problemas ao redor e que a maioria acha que é simples frescura, coisa de gente mimada, como chegam a dizer doença de rico. Não é. A depressão é hoje um problema de saúde mundial e chega a tomar proporção de pelo menos 10% da população brasileira.

Enquanto os homens do poder estão preocupados com a bolsa de valores, campanhas eleitorais, disputas ordinárias, guerras, armamento, ou até mesmo o bumbum de Gracyanne Barbosa, a falta do cuidado com as redes sanitárias trouxe para o cotidiano a ameaça à suas fortunas e levará a vida de seus filhos e parentes, independente de classe social e tamanho de contas bancárias.

Hora de acordar. Enquanto nos distraímos com a tela dos smarthphones, enquanto nos envolvemos com fake news, descuidamos dos nossos afetos hoje representados por Flávio Migliaccio, que triste e sem esperança, decepcionado com o país, joga para trás toda a construção de uma vida de sucesso para violar a existência e morrer de Brasil.

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